Creepypasta – Um encontro Marcado

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Creepypasta - Um encontro marcado




Por: Magali Melo

“E minha alma sai da sombra que esta caída, e flutua no chão, e nunca mais se erguerá”
Edgar Allan Poe

Acordei deitado no chão de bruços, estava escuro e não sabia onde estava. Senti-me como se tivesse levado uma surra e acordado na rua no outro dia. Depois de um tempo, decidi me levantar. Com muito custo lutei contra as dores e a aflição que estava sentindo e levantei-me.

Aos poucos, minha visão foi melhorando e comecei a prestar atenção no que havia ao meu redor, parecia que eu estava em minha casa em um dos salões de festas, este era o que tinha algumas estátuas de mármore da deusa Vênus pelo que percebi, estas pareciam estar olhando para mim com um olhar negro e tentando me alertar de que algo iria acontecer.

Olhando mais a minha volta, percebi que havia alguns volumes no chão, que se pareciam com corpos, aterrorizado o suficiente, afastei-me deles com cautela. Percebi também que eu estava vestido em farrapos sujos, estava totalmente confuso e rapidamente comecei a pensar o que havia acontecido na noite anterior e o que eu estaria fazendo daquele jeito em minha própria casa.

Comecei a tatear as paredes em busca de alguma porta ou janela, encontrei uma cortina, logo a puxei e abri a janela que estava escondida atrás. Era noite e o vento soprava taciturno, porém terrivelmente frio. A luz da lua entrou no salão e pude ver com mais clareza onde eu estava, reparei também que o salão estava totalmente sujo, e aqueles volumes que eu tinha avistado anteriormente, já não estavam mais lá. Levei minha mão até meu bolso à procura de meu cantil de uísque que para meu azar estava vazio. Comecei a sentir um odor fétido que já me estava provocando ânsias de vômito, percebi que este odor estava vindo de mim mesmo.

Neste momento estava eu desesperado, pois não sabia o motivo de minha própria casa estar naquelas condições e nem como havia chegado ali com aquelas roupas sujas e que exalavam aquele odor insuportável, nada me parecia familiar, comecei a entrar em pânico e vários pensamentos começaram a vir-me a mente: “será que estou sonhando?”, “será que estou louco?”.

Permaneci sentado no chão por alguns minutos, mas avistei do outro lado do salão no canto à esquerda a porta de acesso ao outro salão, esta estava fechada. Andei até ela e sem pensar muito resolvi abri-la.
Ao passar por esta porta me deparei com o outro salão de festas, este estava iluminado, tocava música e havia homens e mulheres trajados com roupas finas e elegantes. Estavam valsando pelo salão e parecia que todas aquelas pessoas não tinham notado que eu abri a porta.

Logo reparei que minhas roupas haviam se transformado em outras e eu era o cavalheiro mais elegante daquele salão e o odor que uma vez tomou conta de meus farrapos se transformou no cheiro mais agradável do mundo.Mesmo sem saber o porquê de tudo aquilo, comecei a me animar novamente e os pensamentos angustiantes já não estavam mais em minha mente.

Novamente levei minha mão ao meu bolso e peguei meu cantil, que desta vez para a minha surpresa, estava cheio do melhor uísque que já bebi em toda a minha vida. Então me veio à mente a ideia de que o motivo de ter visto minha casa e a mim próprio naquelas situações fora efeito da bebida. Comecei a andar em direção ao centro do salão a procura de uma jovem donzela para me acompanhar na dança, mas ouvi alguém chamar meu nome.

Olhei para o lado e encontrei um velho amigo vindo ao meu encontro, ele parecia muito feliz em me ver: “Arthur! Quanto tempo faz que não nos vemos!” Assim disse ele vindo ao meu encontro. “Elias! Verdadeiramente faz muito tempo mesmo! A última vez que nos encontramos foi em 1847 quando tínhamos 25 anos não é mesmo?” Respondi estendendo minha mão para cumprimentá-lo. “Isso mesmo” ele respondeu virando de costas e recusando meu aperto de mão. “Poderia me dizer o que estas pessoas estão fazendo aqui?”

Perguntei o seguindo. “Então tu não sabes?” Respondeu ele virando-se para mim e me fitando com uma expressão séria. “Nem imagino. E o que tu estás fazendo aqui?” “Todo homem e toda mulher tem um encontro marcado devia saber disso” Respondeu Elias andando em direção a uma mesa com vários tipos de bebidas. “Encontro marcado? O que quer dizer com isso? Eu estou noivo e não sei disso?” Respondi o seguindo. “É claro que não homem pacóvio!” Respondeu ele rindo e tomando uma dose de uísque.

Ficamos em silêncio por um alguns minutos e comecei a pensar novamente em toda a balbúrdia daquela noite até avistar uma donzela muito bonita do outro lado do salão sentada em uma das várias cadeiras vazias. Ela tinha os olhos fixos em mim, seu olhar era misterioso, seu cabelo era negro assim como suas vestes, era esbelta, aos meus olhos era uma mulher muito atraente, não pensei duas vezes, olhei para meu amigo e disse com um sorriso maléfico: “Bom se não se incomodar, vou tirar aquela jovem moça para dançar e tentar algo mais tarde, afinal uma oportunidade dessas não se pode desperdiçar.”

Assim saí andando em direção a moça. “Vejo que não mudou nada desde a última vez em que nos vimos. Cuidado esta noite pode ser o seu dia.” Disse Elias quase gritando. “Estás louco? Do que está falando?” Disse eu voltando-me e zombando dele. “Tudo tem um fim Arthur e hoje pode ser o seu, seu orgulho e sua luxúria serão a sua ruína como todos dizem.” Disse ele tomando outra dose de uísque “Tu me encontras após sete anos e vem me dizer loucuras?

Quem tu pensas que és?” Perguntei com raiva, porém ele olhou para mim calmamente e disse: “Escute o conselho do seu amigo e volte para o salão de onde veio antes que seja tarde de mais.” Um tanto assustado, olhei para ele e disse: “Tarde de mais? Tarde de mais para o que?” “Para o Encontro que fora marcado esta noite.” Soltei uma gargalhada após ouvir tais palavras e então fui tocar o braço de Elias, mas ele desviou. “Não me toque! Não toque ninguém desta sala Arthur!”

Disse Elias gritando. “Mas por qual motivo não devo tocar em ninguém?” Antes que Elias pudesse responder, o interrompi e exclamei: “Bom, não quero saber o porquê! Tu estás bêbado… Não, não, melhor tu estás louco!” E antes de Elias tentar me impedir, saí ao encontro da tão desejada donzela.
Quando cheguei ao outro lado do salão, me aproximei dela e logo sem receio algum comecei uma conversa: “Oh bela donzela! Como a senhorita se chama?”

Então aquela moça tão misteriosa sorriu timidamente e disse em um volume quase inaudível: “Helena…” Admirado com a doçura de sua voz, continuei: “Oh Helena, por que estás sozinha neste canto enquanto todos estão dançando?” A moça me olhou com um ar pesado e seus olhos faiscaram: “Estava a sua espera…”

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Assim disse a moça e saiu andando em direção a porta oposta da qual eu tinha entrado. Confuso com a sua resposta, perguntei: “Perdoe-me, mas nós já nos conhecemos?” Sem resposta e seduzido pela moça, a segui até a porta pela qual ela havia saído.

Tomado pelo desejo, (que no momento era incontrolável) não prestei a mínima atenção onde estava indo, apenas a seguia. Quando me dei conta, estávamos no jardim dos fundos da casa. Perdi a moça de vista, comecei a andar desesperadamente no meio de todas as folhagens e arbustos presentes no local em busca da tão desejada Helena.

Encontrei-a encostada na parede da casa ao lado da porta pela qual saímos. Ela continuava com aquele mesmo olhar misterioso de minutos atrás, pensei: “Agora é minha chance…” No mesmo momento que tentei tocar sua pele que era pálida como o papel, a moça esquivou-se nervosamente de mim e exclamou com um tom de fúria: “Não me toque!”.

Espantado com a sua fala, olhei para ela e perguntei: “Perdoe-me mais uma vez oh bela moça, mas diga-me, por que não posso tocá-la?”. Sem me dar resposta alguma, Helena saiu andando em direção a porta pela qual saímos. Ainda curioso fui andando atrás dela e fazendo a sempre a mesma pergunta: “Por que não posso tocá-la?”. Provavelmente irritada com minhas várias perguntas sempre iguais como um trecho de música com ritornelo, Helena virou-se para mim e declarou: “Se me tocar tu te juntarás a nós!”.

De alguma forma, o modo que aquela moça me respondeu me fez sentir um desejo ardente e não liguei nem um pouco para o que ela disse, muito menos procurei saber o significado daquelas palavras. De maneira rápida então, agarrei a moça pelo braço e a joguei contra a parede da sala em que estávamos, de modo que ela ficasse virada de frente para mim, logo coloquei meu corpo junto ao dela e dei-lhe um beijo em seus lábios.

Logo percebi a frieza de sua boca, senti aquele frio invadir meu corpo e congelar meus ossos até a minha alma. Então de súbito Helena aproximou seus lábios, agora roxos como os de um cadáver, aos meus ouvidos e exclamou quase sussurrando: “Não deveria ter feito isso… Sua hora chegou…”

Sem qualquer explicação, Helena simplesmente desapareceu de minha vista, saí da sala na qual eu estava e entrei pela primeira porta que avistei. Encontrei-me novamente no salão de festas no qual tinha encontrado Elias e Helena, mas desta vez todos os presentes naquele salão estavam me olhando de forma estranha como se eu tivesse acabado de cometer um crime. A música havia parado, não havia ninguém dançando, estavam todos parados apenas olhando para mim enquanto eu caminhava em direção ao centro da sala.

Quando cheguei ao centro, parei e olhei novamente à minha volta e todos os presentes estavam parecendo cadáveres e um odor de putrefação tomou conta de todo o local. De repente, ouvi uma voz que dizia: “É meu amigo parece que tu não ouviste os meus conselhos.” Era Elias, ele estava andando em direção a mim, mas seu rosto dessa vez estava transformado em um rosto cadavérico como se ele estivesse morto na minha frente. “Elias, por favor, explique-me o que está acontecendo.” Respondi totalmente aterrorizado.

“Nós estamos mortos Arthur, e agora tu também está.” Tomado pelo terror, disse: “Não estou entendendo, isso não pode estar acontecendo.” “Está acontecendo sim, lembra-se quando eu lhe disse hoje ainda para não tocar em ninguém e voltar para a sala de onde tu vieste? Lembra quando eu disse para não ir atrás da moça que estava sentada do outro lado? Lembra quando eu disse que seu orgulho e sua luxúria seriam a sua ruína?”

Totalmente perturbado com essas palavras exclamei: “Sim! Lembro-me muito bem! Mas qual é a relevância desse assunto?” Elias chegou mais perto de mim e disse: “Nós, os mortos saímos de nosso mundo, viemos te buscar esta noite, pois chegaste a tua hora, tu tocaste em um morto que veio a terra para uma missão, tu não fazes mais parte do mundo dos vivos. Hoje tu provaste que é um patife que só pensa em se aproveitar das mulheres como fez sua vida inteira, não há mais razão para tu continuar vivo Arthur, se tu não foste um canalha como tu é tu ouviria meu conselho e não iria atrás da moça que era a tua própria morte e assim provaria que é digno de viver por anos.”

Revoltado com a resposta, gritei com Elias: “Ora e quem és tu para dizer se sou digno ou não de viver? Quem és tu para dizer o que é certo ou errado de se fazer?” “Tu tem razão, não sou ninguém, apenas fomos mandados aqui para te buscar, o encontro foi marcado e tu compareceste agora aceite seu destino.” Totalmente aterrorizado, desviei o olhar de Elias e me deparei com o salão deserto, mas quando me virei para o lado oposto do salão deparei-me com Helena que estava me olhando com os olhos parados. Perguntei: “Tu vieste para me matar?”

E então Helena respondeu: “Morto tu já estás, vim apenas para te levar…” Nesse momento senti como se ela tivesse jogado uma grande capa negra por cima de mim e de repente me deparei novamente naquele salão onde havia acordado anteriormente e com as mesmas roupas sujas e rasgadas de antes. Não podia me levantar, senti-me como se algo estivesse me pressionando contra o chão, o odor que antes estava sentindo voltou a me perturbar, e aquela angústia que eu estava sentindo parecia que nunca teria fim.

Agora eu podia ver com mais clareza que aqueles volumes que pareciam corpos que estavam a minha volta eram na verdade a mesma coisa que eu sou agora… Pobres cadáveres condenados a eterna escuridão.

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