Lua de Sangue

Contos Minilua: Vítimas do ciúme #79

Pois é, leitores, e a cada semana, novos são postados. O de hoje, por exemplo, um dos mais interessantes que já recebi. Confira:

Ah, e-mail de participação: Jeff.gothic@gmail.com! Uma boa leitura a todos!

Vítimas do ciúme

Por: Mel Oliveira

Era uma noite chuvosa de junho, e eu estava voltando do trabalho. Fiquei trabalhando até mais tarde neste dia e como moro longe e estava cansado, resolvi comer algo no café próximo ao escritório.

Entrei pela porta, todo encharcado e tirei o meu casaco. Uma moça com o uniforme do café veio em minha direção com um enorme sorriso no rosto. Era a nova atendente. Ela era tão linda que por uns instantes fiquei ali, parado, olhando pra ela, enquanto ela me perguntava qual seria o meu pedido.

Dirigi-me até a mesa do canto, próxima a janela e me sentei. Ela então, com aqueles lindos olhos verdes e cabelos da cor do ouro me perguntou mais uma vez qual seria o meu pedido.

-O de sempre, por favor. – respondi a ela.
– Desculpe senhor, mas sou nova aqui, poderia por favor me dizer o que deseja? – disse ela docemente.

– Ah, claro. Desculpe. Estou tão acostumado a vir aqui que não me toquei desse detalhe.
Ela sorriu, e eu fiquei mais fascinado ainda pela sua beleza. Pedi um café amargo e um folhado de queijo, ela anotou e foi até a cozinha para busca-los. Trouxe o meu pedido, e dirigiu-se até o balcão. Enquanto ela limpava e organizava o balcão, eu fiquei ali, observando seus gestos delicados.

Pedi a conta e fui embora sem me despedir dela. Mas fiquei com aquela moça na cabeça. Não sabia seu nome e nada sobre sua vida, mas não podia evitar, estava fascinado com tanta beleza.
Os dias foram passando e com o tempo eu fui conseguindo me aproximar dela. Já sabia seu nome, era Juliana. Foi então que resolvi chama-la pra sair.

Ela aceitou e combinamos de jantar no sábado. Eu estava ansioso, afinal, não me interessava por uma mulher há uns 3 anos, desde que perdi minha esposa num acidente de carro. Eu vivia sozinho e passava o tempo todo trabalhando, não havia sequer imaginado ter uma namorada novamente. Mas ela despertava em mim um sentimento tão bom, que me fazia sentir vivo de novo.

O sábado chegou, e junto com ele uma mistura de ansiedade, medo e alegria. Sim, alegria. Pela primeira vez em tanto tempo eu me senti alegre, e o motivo tinha nome, Juliana.
Jantamos num restaurante muito bom que havia na cidade, conversamos sobre vários assuntos e trocamos telefones. Agora sim eu sabia algo sobre a vida da minha amada. Ela havia chegado a pouco tempo na cidade e vivia sozinha em um apartamento.

Não conhecia ninguém além de mim. Contei a ela sobre a minha vida, meu trabalho e tudo mais. Acompanhei ela até seu apartamento e ela me deu um beijo de boa noite. Foi o que bastou pra que tivesse certeza, eu estava realmente apaixonado.

Mas ainda não sabia se ela tinha o mesmo sentimento por mim. Pensei rápido, e achei melhor continuar conversando com ela por mais uns dias, até ter certeza se era correspondido.Depois deste encontro saímos por várias vezes. Era sempre um melhor que o outro. Ela era divertida e ria das minhas piadas idiotas.

Nós combinávamos em tudo. Foi então que decidi pedi-la em namoro, e para minha felicidade ela aceitou. O tempo passou e eu estava cada vez mais apaixonado, e ela também retribuía esse sentimento.

Quando um dia ela me ligou chorando e muito nervosa, pois havia sido demitida. Tentei acalma-la mas sem sucesso. Pensei que essa era a hora certa de convidá-la pra morar comigo, afinal, já estávamos juntos há 7 meses, e como ela pagava aluguel, não tinha pra onde ir. Ela aceitou, e na manhã seguinte já estava no meu apartamento. Parecia um sonho. Eu tinha uma mulher linda, atraente e perfeita.

Até que Juliana começou a mostrar um lado seu que eu não conhecia. Um lado muito ciumento por sinal. Eu trabalhava em um escritório de contabilidade, e tinha várias mulheres lá. Ela tinha muito ciúmes e me ligava de meia em meia hora perguntando onde eu estava e com quem estava falando. Chegava em casa exausto e tinha que responder um interrogatório, era sempre a mesma coisa. Já não saíamos pra jantar, e ela já não ria das minhas piadas.

Vasculhava as minhas coisas, cheirava minhas roupas, sempre procurando um sinal de mulher. Mas nunca encontrava, pois apesar de estar me cansando dela, ainda restava respeito, e jamais a trairia.

Um dia, meu amigo Sérgio que trabalhava como escrivão numa delegacia me ligou muito nervoso pedindo que eu fosse ao seu encontro. Insisti em saber de que assunto se tratava mas ele disse apenas que era algo muito importante e tinha que dizer pessoalmente. Fui até o bar próximo à delegacia e lá estava ele a minha espera. De longe notei que Sérgio estava muito aflito pois não parava de estalar os dedos. O cumprimentei e sentei-me junto a ele.

– Cláudio, eu preciso te mostrar uma coisa- disse ele.
-Pois mostre de uma vez. Já está começando a me assustar com tanto suspense- ele pegou uma pasta preta na sua bolsa e começou a folheá-la. Tinha várias fotos de homens e mulheres procurados pela polícia. Ele virou a pasta e me mostrou uma foto em especial.
-Reconhece esta moça?- disse Sérgio.

-Não pode ser! É a Juliana! – exclamei muito surpreso. Na foto ela estava mais jovem e com os cabelos escuros, mas não tinha duvidas, era ela.
-Eu vim te mostrar porque não tinha certeza de que era a Juliana- disse Sérgio.

Eu não podia acreditar. A minha Juliana era foragida da polícia. Sérgio então me mostrou a ficha dela. Tinha várias passagens por agressão, duas tentativas de homicídio e a pior delas, era procurada por ter matado o marido.
Eu fiquei chocado. Não consegui acreditar no que estava lendo. Perguntei a Sérgio como ela havia matado seu marido, então ele me contou.

Ele havia prestado queixas contra ela por agressão e um dia, quando chegou do trabalho ela estava o esperando com o jantar pronto. Ele jantou sem dar uma palavra sequer com ela. E alguns minutos depois começou a passar mal e desmaiou. Juliana o levou até o porta-malas do carro, dirigiu até uma estrada de chão e chegando em uma casa abandonada o retirou do carro.

Ele estava amarrado e amordaçado. Ela o arrastou pra dentro da cabana e o deitou no chão. Tirou as roupas dele e as deixou dobradas num canto. E com uma faca grande e afiada fez várias marcas em seu corpo.

Por último, cravou a faca em seu peito e ficou ali, vendo ele agonizar até a morte. Abandonou o corpo do pobre coitado e voltou pra casa, juntou seus pertences e simplesmente fugiu. A polícia consegui chegar até o corpo por depoimentos de vizinho que à viram naquele dia saindo de casa apressada em direção à estrada.

Desde então, ela é considerada uma fugitiva.Não consegui acreditar no que tinha acabado de ouvir. Como ela pode ter coragem de fazer uma coisa dessas? Me despedi do meu amigo e voltei para o escritório. Fiquei pensando em tudo aquilo e juntando as peças deste quebra cabeças. Isso explicava muita coisa. Ela nunca me disse nada sobre sua família e evitava falar de seu passado.

Essa era a razão de tanto mistério. Mais tarde, quando cheguei em casa, ela já estava me esperando. Como de costume vasculhou minhas coisas em meio a gritos histéricos de ciúmes. Fiquei calado o tempo todo. Não tive reação alguma e ela percebeu que algo havia acontecido. No dia seguinte liguei para o Sérgio e pedi a ele que esperasse alguns dias para entrega-la à polícia. Ele concordou e pediu que eu tivesse cuidado.

Passado uma semana resolvi chama-la pra conversar. Pedi a separação pois já não aguentava mais conviver com as discussões, e agora estava com medo do que ela podia fazer contra mim. Juliana chorou copiosamente e me pediu de joelhos para não deixa-la, mas eu estava decidido. Ela então me fez um último pedido, que ficasse com ela por mais alguns dias e que vivêssemos esses últimos dias como se nada tivesse acontecido.

Ela me olhava de um jeito que me deixava assustado. Suas pupilas estavam dilatadas e seus lábios brancos. Juliana me pegou pelo braço e insistiu mais uma vez. Ela segurava com muita força e cravava suas unhas compridas na minha pele. Fiquei apavorado e com medo. Achei melhor não contraria-la, mas disse que seriam apenas quatro dias e ela concordou. Como num passe de mágica seus olhos voltaram ao normal e seus lábios ganharam cor.

Ela me abraçou, me deu um beijo e agradeceu. Fomos para o quarto e nos deitamos na cama, ela me abraçou novamente e dormiu nos meus braços. Eu fiquei olhando pra ela ali, dormindo como um anjo, e me lembrando do dia em que a conheci. Do quanto ela era doce e como eu a amei.

No dia seguinte liguei para o Sérgio novamente e contei ter pedido a separação mas que havia prometido passar esses quatro dias com ela. Ele disse que eu era louco, que devia sair de perto dela o mais rápido possível pois de uma psicopata pode se esperar qualquer coisa. Eu concordei e então pedi a ele que fosse até meu apartamento buscar minhas coisas durante a tarde.

Ele foi, mas não voltou. Esperei Sérgio em frente a sua casa como havia combinado, mas nada dele chegar. Comecei a ficar preocupado e resolvi ir até meu apartamento. Chegando lá, Juliana abriu a porta para que eu entrasse. Ela estava com um vestido preto muito sexy, os cabelos soltos, batom vermelho e super perfumada. Me pediu que entrasse que o jantar estava pronto. Entrei, e me sentei junto a mesa. Ela me ofereceu vinho e eu aceitei.

Foi aí que eu lembrei que no dia em que Juliana matou seu marido ela serviu o jantar pra ele e que minutos depois ele passou mal e desmaiou. Achei melhor não comer, nem beber nada, mas ela insistia. Perguntei a ela se o Sérgio havia estado ali mais cedo e ela disse que não. Achei estranho pois ele ficou de ir lá e havia sumido. Ninguém tinha o visto e seu celular estava desligado.

Enquanto isso, Juliana tentava me seduzir de todas as maneiras, mas eu tinha que ser forte. Tinha que sair dali logo, pois estava com um mal pressentimento. Me levantei da mesa e me dirigi até o banheiro do quarto. Fiquei lá por alguns minutos pensando em uma maneira de sair dali sem que ela se zangasse. Enquanto estava pensando, algo me chamou atenção no ralo do banheiro. Eram gotas de sangue. Sai do banheiro e fiquei um tempo no quarto.

Enquanto isso, Juliana estava quieta na sala de jantar. Não ouvi nem um barulho dela e comecei a me preocupar. O que será que ela estava fazendo? Sentei na cama e olhei para o chão, mais uma pequena gota de sangue me chamou a atenção. Desta vez era em direção ao closet. Abri a porta e para minha surpresa lá estava o corpo de Sérgio, todo ensanguentado e com vários cortes. Virei em direção da porta do quarto e pensei em correr mas já era tarde, Juliana já estava a minha espera com uma enorme faca na mão.

Ela veio pra cima de mim e eu consegui correr para sala, mas ela era rápida, num piscar de olhos já estava atrás de mim. Sai correndo em direção a porta mas estava trancada. Juliana se aproximou novamente e dessa vez veio com uma tamanha força que não consegui segura-la. Levei uma facada no ombro e na hora quase cai de tanta dor.

Me segurei no sofá para não cair enquanto ela se preparava para dar uma facada certeira, tirei forças não sei de onde e consegui me recompor, pra minha sorte estava ferido no braço esquerdo e assim que ela chegou bem perto dei um soco na boca dela com a mão direita. Ela ficou meio zonza, caiu no chão e largou da faca. Então, num ato de desespero peguei a faca e olhei bem para os olhos de Juliana, ela me olhou com uma carinha de piedade e por um momento até pensei em não fazer nada, mas não tinha jeito, era ela ou eu.

Cravei a faca em seu peito e vi minha amada Juliana morrendo bem ali, na minha frente. Me senti mal por ter feito isso, mas eu não tive escolha, se eu não a matasse ela me mataria e hoje estaria solta por aí fazendo mais vítimas. Larguei a faca no chão e imediatamente liguei para a polícia e me entreguei. Afinal, eu havia cometido um crime e tinha que pagar por isso.

Sai de lá algemado e fui levado direto para a delegacia, o delegado ouviu meu depoimento e mandou que me levassem para uma cela. Aguardei o julgamento e fui condenado, passei anos da minha vida preso, mas hoje estou livre novamente.

Hoje em dia tento levar uma vida normal e esquecer o que vivi, mas sempre acabo me lembrando da Juliana. Ah, minha doce Juliana. Queria muito que nossa história não tivesse acabado assim, mas infelizmente esse foi o nosso fim. Apenas mais duas vítimas do ciúme.