Lua de Sangue

Contos Minilua: Visita de Natal #264

Pois é, e lembrando mais uma vez, que todos os temas são aceitos. Se preferir, encaminhe desenhos, pinturas ou charges. PS: o e-mail de contato, claro: jeff.gothic@gmail.com! A todos, uma excelente leitura!

Visita de natal

Por: Anderson Cley

Carlos sempre odiou o natal. Para ele, não passava de uma data comercial criada com o intuito de alavancar a economia, além de uma maneira enfadonha e masoquista de reunir familiares – pessoas às quais nunca se dá falta, mas que aparentemente é presença certa nessa data.

A mãe dele dizia que era a celebração do nascimento do menino Jesus, e mesmo ele apontando para ela que isso foi só uma forma do cristianismo competir com datas comemorativas pagãs, como o solstício de inverno, ela o mandava calar a boca e deixar de besteira.

Não foi diferente esse ano, a não ser o fato de que a ceia seria em Curitiba, mais de 100 quilômetros da casa deles, e que, por uma benção natalina, a mãe de Carlos lhe concedeu o exercício do livre-arbítrio. O garoto quase não acreditou quando observou o carro se distanciando de casa enquanto ele acenava do portão.

Era umas dezoito horas e a noite já dava os primeiros indícios de sua chegada. Carlos estava morto de cansaço. Trabalhava como vigia noturno para um posto da cidade das cinco da manhã às cinco da tarde, embora nunca tivesse feito um treino sequer para isso.

Só ficava lá averiguando ao redor( coçando o saco, como dizia o dito popular).Carlos matou um pouco do tempo no portão, verificando a vizinhança – as casas com pisca-pisca multicoloridos oferecendo um feliz natal para as pessoas que por ali transitavam, duas velhinhas jogando conversa fora na calçada do outro lado da rua, um senhor de meia idade fumando seu cigarrinho de palha e… o que pareciam serem três garotos mexendo no celular sob uma árvore na parte mais distante da quadra. Carlos desconfiou por um momento, detendo seu olhar nos três indivíduos suspeitos na esquina.

No entanto, logo sua inquietação cessou ao ver um carro dando carona para os três e seguindo viagem para longe dali. Carlos fechou a porta e desabou no sofá, fatigado por mais um dia de trabalho. Puxou o celular e buscou um vídeo no Youtube sobre games. Era o que mais gostava de fazer – gastar sua vontade de jogar um jogo que saberia que nunca poria a mão assistindo a gameplay em qualquer canal na Internet.

O garoto achou estranho ao perceber que estava suado, no meio do escuro e com o celular vibrando no chão da sala. Ele limpou a baba do canto da boca e deslizou até o aparelho, perguntando-se por quanto tempo havia dormido. Sem saber a resposta, atendeu a ligação de sua mãe.

– Oi, filho. Tudo bem?

Carlos fez uma careta e massageou os olhos, ainda grogue.
– To, sim, mãe… – ele bocejou – Cochilei aqui no sofá. Que horas são?
– Que cochilo, hein! São duas da manhã. Só to ligando para dizer boa noite. Tá tudo bem mesmo? Um tilintar de metal ecoou da cozinha. O sono e preguiça de Carlos lhe escaparam de repente.

– Er… tá, sim. Eu… – ele focou os olhos na direção da cozinha. A casa estava por completa escura, mas o garoto tinha quase certeza de que havia captado uma forma sólida se esgueirar entre as cadeiras. – Vou me aprontar e voltar a dormir. Beijos, boa noite.

– Ok, boa noite. Se cuida. Desligou o celular. Por dois minutos de tensão, Carlos permaneceu estático, fitando o ponto fixo debaixo da mesa onde aquela forma estava se escondendo. Ele piscou para adaptar sua visão, até que o celular vibrou de novo, fazendo-o pular de susto.

– O que foi?! – sussurrou numa voz contida de raiva para a mãe.
– Por que está falando assim? Só iria lembrar você de trancar a casa.

Carlos mirou novamente para cozinha, a visão atordoada devido ao facho de luz temporário do celular. Após alguns segundos de adaptação, encontrou as cadeiras na mesma posição, mas agora sem a forma sólida.
– Eu acho que sim. – disse ele à mãe – Depois a gente conversa. Tchau.
– Ok, seu mal-educado. Boa noite. Tchau. Creck!

Os pelos de Carlos se eriçaram. Ele paralisou como se estivesse em estado de tetania. Mal respirava. O batuque de seu coração ecoou em seus ouvidos a uma altura que fez o garoto temer que a presença o detectasse por esse ruído. Seus olhos varreram os dois cômodos – a cozinha e a sala. Qualquer objeto parecia potencialmente uma figura pronta para atacá-lo, os vasos, o braço do sofá, o tronco seco perto da porta? Espera aí…

Carlos entrou em pânico e se arremessou na direção do interruptor.Entre berros de terror, observou dois meninos fugindo de sua casa, um pela porta da frente e o outro pela janela da cozinha. Os dois saltaram o muro para a calçada enquanto Carlos urrava no quintal.

– Pega ladrão! Ladrão!
Alguns moradores surgiram de suas residências para dar apoio ao jovem. Antes de virarem a esquina, Carlos foi capaz de ver quem eram os trombadinhas: os mesmos moleques que pegaram carona horas atrás.

– Tá tudo bem, filho? – perguntou um dos vizinhos.
– Sim. Foi… foi só um susto.
– Eles te machucaram? – indagou outro.
– Não.

– Esses arruaceiros – disse um terceiro – Esses três já tentaram roubar em casa uma vez. Bando de ordinários.
– Quer ir pra casa, filho? Talvez se sinta melhor – ofereceu o primeiro homem.
– Não, não. Valeu. Só vou me deitar mesmo. Estou cansado. Boa noite pra vocês.
– Boa noite. – disse os homens.

Antes de se arrumar para dormir, Carlos trancou as portas e janelas e certificou-se de que não havia mais ninguém além dele naqueles dois cômodos. Estava tão paranóico que até abriu a geladeira para sanar seu medo. Não queria ter a surpresa de se deparar com mais um engraçadinho brincando de esconde-esconde.

Carlos encostou a porta do quarto, apagou a luz e se aconchegou no conforto de sua cama, fechando os olhos. A três metros dali, um par de havaianas raspou no chão do corredor.