Contos Minilua: Tapas no ombro #211

Pois é, e lembrando mais uma vez, que é muito fácil participar! O e-mail de contato: [email protected]! A todos, uma excelente semana!




Tapas no Ombro

Por: Ninno Darcq

Dentre todas as qualidades que julgo possuir, coragem é a que mais me orgulho. Tal virtude já foi posta à prova inúmeras vezes na minha juventude. Hoje estou velho, mas as lembranças daquela horripilante noite ainda se fazem presente em minha mente, e me fazem acordar aos gritos em algumas noites.

Eu saía de uma festa de casamento, já se passava da meia noite, e eu teria uma jornada de quinze quilômetros, a qual eu faria a bordo do meu cavalo, que eu apelidara de ventania. Depois de agradecer a hospitalidade e parabenizar mais uma vez os noivos, eu montei no Ventania e segui caminho, ainda me pediram pra passar a noite, e não viajar sozinho, mas eu recusei educadamente, sob o argumento de que a lua estaria iluminando até mesmo um prego que caísse no chão.

Dos quinze quilômetros que me separavam da minha casa, quatro deles cortavam uma densa, floresta. Depois um bom tempo de viagem, num galope contínuo, eu já podia ver o topo das árvores mais altas.

Mas o Ventania foi parando gradativamente à medida que a floresta ia aparecendo em nossa frente. Suas orelhas se levantaram em direção à entrada da mata, mas logo desviou a atenção para um córrego que passava na beira da estrada, de fato, eu também estava com sede.

Quando eu desci do Ventania, uma rajada de vento partiu do interior da mata em minha direção, trazendo um turbilhão de folhas secas e poeira, aquilo passou por mim, e eu tive a impressão de ter ouvido um sussurro macabro junto ao vento, achei estranho aquilo, mas não dei muita importância, a sede falava mais alto.

Me abaixei na beira do córrego e peguei a água com as mãos em forma de concha, enquanto bebia a água, uma coruja rasga mortalha sobrevoou minha cabeça, quase me fazendo engasgar, aquilo era conhecido como um mal presságio, e, das poucas coisas que me deixavam desconfortável, aquela era uma delas.

O Ventania olhou novamente para a entrada da mata com as orelhas levantadas, e começou a bater as patas no chão como se quisesse correr. Depois de saciar minha sede, eu me posicionei ao lado dele e com um pé no estribo eu ouvi um suspiro profundo ao meu lado. O susto foi súbito e rapidamente olhei pro lado buscando encontrar quem originou aquele suspiro, mas não vi ninguém ali além de mim e o Ventania.

Subitamente senti um arrepio que percorreu todo meu corpo, era como um aviso pra eu ir embora. Montei no Ventania iniciei a disparada, nem precisei usar as esporas nele, o coitado estava apavorado e queria sair dali tanto quanto eu.

A lua iluminava a noite como um holofote, mas o caminho que eu começava a trilhar se tornava cada vez mais sombrio e assustador. Durante a disparada, alguns galhos batiam no meu ombro com a força de uma bofetada, eu não sabia como, não sabia por que, mas sabia que tinha que sair daquela mata o quanto antes.

Mas meu desespero começou a crescer quando o Ventania foi diminuindo o ritmo gradativamente, e soprando o ar com violência de seus fortes pulmões. Estaria cansado? Logo meu cavalo que deixava pra trás qualquer cavalo de corrida que o desafiasse…

O pobre Ventania estava quase se arrastando, quando virou seu pescoço de lado, como que pra olhar pra mim. Ao fazer esse movimento, ele tentou correr, mas estava sem forças e mal pode trotar por mais alguns metros.

Eu ansiava por chegar a uma clareira à minha frente, onde a luz da lua descia por entre as árvores e iluminava toda a clareira, aquela escuridão toda estava começando a mexer comigo. Mas parecia que quanto mais o Ventania capengava em direção à luz, mais a luz se distanciava de nós. A dúvida corroía minha mente. O que se passava com meu cavalo, pra se cansar tão rápido?

Finalmente os primeiros raios de lua tocaram a cabeça do Ventania, eu podia ver claramente o chão, isso pareceu dar um novo alento ao animal, e aquela sensação de pavor indescritível começou a sumir.

Tudo isso durou o tempo que eu levei pra ver nossa sombra no chão. Meu coração disparou, eu comecei a tremer e não tinha reação, de repente toda a minha coragem se foi. Na sombra que se fazia no chão, além de mim e do Ventania, alguma outra coisa estava montada na garupa do meu cavalo, causando nele aquela sensação de peso. Talvez por reflexo involuntário, eu me virei rapidamente pra ver o que estaria bem atrás de mim.

O grito que escapou da minha garganta foi suficiente para fazer um bando de aves sair em revoada no meio da noite, pobre ventania que me perdoe, mas, por reflexo, cravei as esporas em sua barriga, há essa altura eu já nem raciocinava direito, mal enxergava, e só queria sair dali, fugir pra longe daquela coisa toda preta, chifruda e com olhos vermelhos, que começava a dar tapas no meu ombro à medida que o Ventania corria, graças a Deus que ele teve forças pra correr.

Os tapas no meu ombro me acompanharam por mais alguns metros, até que eu senti que a coisa saltou do cavalo dando ao ventania um impulso reconfortante e eu logo via a claridade do fim da floresta.

Quando cruzei a última árvore olhei pra trás, e do meio da escuridão ainda podia ver o brilho vermelho dos olhos daquela coisa. À minha frente ficava a grande pastagem cortada por um carreiro estreito, em uma planície quase sem árvores, de onde já era possível ver minha casa, onde minha família me aguardava, onde todos ouviriam acerca do terror que me acompanhara no meio da mata.

Nunca ninguém mais viu tal ser, mas há quem diga que se sentiu observado atravessando aquele lugar sozinho de noite, outros chegaram a relatar que perceberam o mato se mexendo, outros ainda dizem que passaram correndo e os galhos batiam no seu ombro. Como bofetadas.

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  1. Weberton Gervasio

    4 de agosto de 2016 em 22:14

    Muito bom, com riqueza de detalhe e bom enredo que prende o leitor… mas poderia ser maior…

  2. Garota Infernal

    8 de setembro de 2014 em 23:28

    Eu gostei, esse conto traz aquela sensação de realidade por ser o típico conto do andarilho, do pescador, do vaqueiro ou dos nossos velhos avós que já tiveram que acordar cedinho ainda jovens para colocar garrafas de leite na porta da casa das pessoas(É isso que os desenhos animados relatam sobre os os anos abaixo dos anos 50…). Me lembrou bastante o folclore brasileiro, me lembrou a história do Boitatá, tipo, o cara que vagava pela floresta… Poderia ser clichê, mas não é.
    O que eu achei um pecado, não sei se é porque esse não é o meu estilo de escrever, mas eu meio que me senti um pouco cansada de tantos adjetivos “assustadores”, “macabros” e “esquisitos”, mas a narrativa quando escrevemos em forma de depoimento sempre há excesso de palavras. Que homem comum fala certo? O dever de um escritor é misturar a realidade e a ficção, a ficção já é respeitada quando concebida, o que falta é a realidade ser respeitada nesse “bolo”(E aqui a realidade foi muito respeitada, e a recompensa é sempre a sensação de realidade, o que é o triunfo do escritor seja ele amador, iniciante ou já consagrado. Isso torna a arte de escrever excitante.)

  3. Wald. Angélico Lopes

    8 de setembro de 2014 em 14:47

    Poucos contos de terror me trazem a sensação de estar sendo observado, ou até mesmo de imaginar com clareza o terror e o suspense que existe em meio à escuridão. Quero parabenizar o autor por este relato, muito palpável, que parece uma história que um avô conta para os netos, como se fosse aventuras de sua juventude. Ou até mesmo histórias que minha própria mãe contava para mim, relatando sua infância no interior do nordeste e das muitas lendas e superstições que as pessoas possuíam na época. Gostei do conto, muito bem escrito, às vezes alguma palavra repetida aqui, uma vírgula fora do lugar ali, mas nada que tire a grandeza do mesmo, que concluiu com êxito seu objetivo: deixar-me desconfortável e reflexivo.

    • Jorlan Darcq

      8 de setembro de 2014 em 18:44

      obrigado cara

  4. Adriano Saadeh

    8 de setembro de 2014 em 08:20

    Me surpreendeu positivamente!
    xD

  5. Adriano Saadeh

    8 de setembro de 2014 em 08:19

    Tem gente de talento criando esses contos hein!

    • DCemblemático

      8 de setembro de 2014 em 11:07

      Não vai kibar esses contos não, tomos de olho em você he-he-he

      • Adriano Saadeh

        8 de setembro de 2014 em 11:09

        não vou não só kibo os dos sem talento!
        xD

        • DCemblemático

          8 de setembro de 2014 em 11:11

          O Marvel não curtiu isso he-he-he

  6. Felipe Bleichvel

    7 de setembro de 2014 em 23:34

    sério, ninguém vai responder a pergunta “você tem mais de 18 anos?” com um não

    • Maria Victoria Souza

      8 de setembro de 2014 em 13:40

      eu respondi (eu só tenho 10 anos e tenho pesadelos)

      • Felipe Bleichvel

        8 de setembro de 2014 em 19:06

        isso é meio contraditório… já que você ta respondendo meu comentário ‘-‘

    • DCemblemático

      8 de setembro de 2014 em 11:10

      Mas pelo menos não vai te país reclamando que os filhos deles estão lendo coisas inapropriadas, eles estão avisando já que tem conteúdo pesado he-he-he

  7. André Silva

    7 de setembro de 2014 em 23:11

    Muito bom, adorei o conto! Foi bem envolvente, a gente se sente no lugar do protagonista.

  8. Nameless

    7 de setembro de 2014 em 22:58

    Algumas vírgulas erradas e tals, mas até que foi bom. Só eu tive a impressão de que essa história ocorreu no Rio Grande do Sul?

  9. Litzen Vampiro

    7 de setembro de 2014 em 22:46

    Interessante foi ler esse conto escutando atmospheric black metal https://www.youtube.com/watch?v=n7n3XziOKvs

  10. Jeff Dantas

    7 de setembro de 2014 em 22:46

    • Garota Infernal

      8 de setembro de 2014 em 23:29

      Foi você quem escolheu O.o

    • Litzen Vampiro

      7 de setembro de 2014 em 22:47

      A noite proporciona cenários magníficos…

  11. Blue

    7 de setembro de 2014 em 22:42

    ele só queira uma carona

  12. Litzen Vampiro

    7 de setembro de 2014 em 22:42

    Ótimo, só que achei pequeno, poderia ter desenvolvido mais a história, poderia ficar bem mais legal e intrigante, uma pena ser tão curto mesmo assim ficou bom…
    #Volta Big Hits

    • Jorlan Darcq

      8 de setembro de 2014 em 18:42

      to criando uma série de contos no cenário rural, até agora foram postador este e outro chamado “o casebre”

22 Comentários
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