Lua de Sangue

Contos Minilua: Rastros de sangue #112

E desde já, contamos com a sua participação. O e-mail de contato: Jeff.gothic@gmail.com! A todos, uma excelente leitura!

Rastros de Sangue – parte 1

Por: Natanael Vieira

Henrie estava cansado. Seus pés, destruídos por andar mais de 300 km. Mas chegou – finalmente – até onde sabia que estaria seguro: o pântano. Aquela paisagem lhe era tão aconchegante. Na sua casa, ele sabia que seria atacado a qualquer instante.

Sua mulher e seu filho – ele tinha certeza – estavam armando um complô contra ele. E daí que seu filho Tayler tivesse apenas 4 anos? Henrie via diversas pessoas entrando em sua casa a todo o momento. Até dentro da televisão ele as via.

Andava na rua, desconfiado. No principio, pensou estar ficando louco, mas depois teve total certeza de sua sanidade. Eram todos ao redor dele que estavam pirados, por isso decidiu ir embora da cidade. Como às noites, seus sonhos sempre se centravam em pântanos, decidiu atravessar duas cidades e ir até o mais perto. Durante o percurso, via pessoas descendo do céu e emergindo do chão e as cumprimentava. Gostava de ser educado.

Quando chegou ao local, seus pés ardiam e bolhas estouravam a todo segundo, mas ali não havia nenhuma pessoa, e tinha certeza de que ali, estaria seguro.

********

Marcie estava desesperada. Seu marido Henrie desaparecera! Ela sabia que ele não estava bem nos últimos dias. Via pessoas que não existiam, vivia desconfiado. Numa certa ocasião, pegou uma faca e ameaçou-a de querer matá-lo, mas ela não achou que ele fosse fugir de casa. Enquanto remexia legumes em uma panela, ouviu o telefone tocar.

– Tayler, pode atender pra mim, por favor? – gritou ao filho, e pouco tempo depois, ouviu-o chamar seu nome.

– Mamãe, é o papai! – gritou da sala.

Marcie, apressada, deu as costas ao fogão e correu até lá.

– Amor, amor, é você mesmo?

– Sou eu. – disse com voz desprovida de emoção.

– Querido, onde você está?

– Estou no pântano River. – continuou.

– Tudo bem amor, estou indo te buscar! – exclamou, desligando o telefone e discando imediatamente para o número de Luce, sua irmã mais próxima. Seu cunhado atendeu ao terceiro toque.

– Alô? – disse a voz do outro lado.

– Allan? É você?

– Sim.Quem fala?

– Allan, aqui é a Marcie. Por favor, preciso de vocês urgentemente. Você pode nos levar até o pântano River? Henrie acabou de ligar e disse que está lá. Por favor!

– Nossa! Claro. Vou pegar as crianças, Luce, e partimos imediatamente!

– Muito obrigado. Ah, Tayler vai caber no carro?

– Sim, ele tem mais bancos traseiros.

– De novo, muito obrigada. Estamos descendo imediatamente. – disse, e com lágrimas lhe aflorando os olhos, desligou o telefone.

Vestiu uma roupa rapidamente em si e em Tayler.

– Vamos encontrar o “papi”, mamãe?

– Vamos sim, filho – disse, dando-lhe um beijo na face.

Dentro de breves minutos, desceram até a casa da irmã.

Lá, viu todos dentro do carro, menos Alex, seu sobrinho.

– Ora? Alex não vai não? – pergunta Tayler, que segurava a mão da mãe.

– Vou chamá-lo – disse Luce, e foi até o quarto do filho, que viajava na tela do computador.

– Alex, “tá” na hora de irmos.

– Eu já disse que não quero ir, mãe.

– Alex, ele é seu tio, e vê-lo lá vai fazê-lo bem. Ele gosta muito de você.

– Eu também gosto dele, mas não quero vê-lo do jeito que estava nos últimos dias.

– Ele está bem. Até ligou pra sua tia.

– Mãe… lá não tem sinal. Não pega Internet.

– Alex, não vamos nos mudar pra lá. Vamos somente ir buscar seu tio.

Alex se rendeu, sabendo que a mãe falaria sem parar, então desligou o computador, calçou suas sandálias e foi direto até o carro. Lá, cumprimentou sua tia e Tayler com um aperto de mão. Apesar de já ter 16 anos, Marcie e seu filho sempre estranhavam quando ele agia como tal.

Logo em seguida, o carro saia da garagem. Embarcaram então na viagem.

********

As horas se arrastavam como caracóis. Por ser sexta feira e feriado, as estradas estavam abarrotadas de veículos. Chegaram ao pântano já eram quase três da tarde. Rodaram por mais quase duas horas. O lugar era imenso. Já estava escurecendo quando encontraram uma casa camuflada por folhas e galhos.

– É aqui! – gritou Marcie.

Desceram todos do carro e se embrenharam no percurso árduo até a cabana. Quando chegaram até a porta, deram uma parada e deixaram Marcie ir à frente. Abriu a porta.

– Amor? – sussurrou ela baixinho, entrando. Os outros seguiram atrás dela.

Encontraram Henrie sentado no sofá.

– Henrie! Meu amor! – Marcie gritou e foi correndo abraçá-lo. Ela o envolveu em seus braços junto com Tayler, mas Henrie mal se moveu. Todos o cumprimentaram, mas ele permaneceu imóvel, fitando o nada. Marcie ergueu Henrie por um braço e Allan pelo outro. Com dificuldade, o carregaram até o carro. Eles foram à frente, com o resto do grupo vindo bem atrás. Alex correu na frente e abriu a porta do passageiro. Allan e Marcie depositaram Henrie ali, como uma casca morta.

– Posso dirigir, Allan? – Marcie sugeriu.

– Fique à vontade – ele lhe respondeu, e lhe entregou a chave do carro, entrando nos bancos traseiros com os outros. Marcie sentou-se no banco do motorista e ajeitou a chave na fechadura. Então, Henrie fez seu primeiro movimento. Virou a cabeça para encará-la.

– O que foi, amor? – Marcie disse, olhando para ele.

Henrie continuou olhando estático para sua esposa. Tudo no mundo pareceu parar aquele momento. A seguir então, tudo se passou em câmera lenta. Ele meteu a mão no bolso e retirou de lá uma faca que tinha 20 centímetros de lâmina e cravou-a no estômago de Marcie por 6 vezes enquanto ela gritava, em pânico.

O sangue saltava e esguichava em todo o carro. Todos nos bancos traseiros entraram em desespero e tudo o que se ouviu foram seus gritos. Lutaram para fugir, mas no mesmo instante Henrie esticou o braço e acionou a trava elétrica, trancando todas as 4 portas do carro. Henrie pôs outra mão dentro de seu bolso e tirou um tecido negro, enrolando-o na cabeça.

Uma máscara.

Deu uma volta para ajeitar os olhos e logo após, encarou a família.

********

Alex se virou e com um chute, quebrou o vidro da janela.

– Foge filho! – gritou Luce a ele. Alex se virou, e pela janela se jogou ao chão, soltando um grunhido quando um caco ainda preso na armação da janela rasgou a pele de sua barriga, encharcando sua blusa de sangue. Firmou a mão no corte para estancar e correu até o outro lado do carro, se acelerando quando a porta da frente começou a se abrir lentamente. Pegou um galho frondoso no chão e bateu ele com força na porta até que ela se abriu.

Todos saíram lá de dentro assim que Henrie pôs o primeiro pé no chão e correram. Alex, não se importando com a dor aguda que se espalhou por sua barriga, pegou Tayler e saiu correndo com ele. Correram por cerca de 5 minutos, adentrando cada vez mais fundo na floresta do pântano, até que Alex olhou pra traz e exclamou.

– Hei! Podemos parar agora? Acho que o despistamos!

Todos pararam e olharam para trás, sentando-se no chão logo em seguida.

– Segura ele um pouco, mãe. – disse Alex, entregando-lhe Tayler, que soltava breves lágrimas.

– Que merda aconteceu aqui?! – exclamou Allan.

– Ele ta muito normal “né” mãe! – esbravejou Alex

– Ele pirou de vez! – disse Loren.

– Não fale assim enquanto o filho dele estiver aqui! – danou Luce, tampando os ouvidos do pequeno Tayler.

– Esse é o menor dos problemas, mãe. – disse Alex. Abaixou a voz para continuar. – Ele viu o próprio pai matar a mãe! Esse que está nos caçando nesse exato instante!

– Temos que dar um jeito de sair daqui! Ligar para a policia ou qualquer droga dessas! – disse Loren.

– Como, se aqui não tem sinal? – respondeu Allan.

– É obvio que tem! – disse Alex. – Como ele ia ligar pra tia Marcie sem sinal?

– Bem pensado… Deve ter sinal e um telefone na cabana… – emendou Luce.

– Vou lá. – disse Alan.

– Pai. O senhor custa ligar e sintonizar a TV. Como vai ligar para a policia, procurar sinal? – disse Loren. – Deixa que eu vou.

– Ahh! Não vai não! – disse Luce.

– Nem pensar, menina! – Allan também a repreendeu.

– Deixa que eu vou! – Alex já sabia que ia sobrar pra ele.

– Essa não é uma boa ideia. – Luce questionou. – Você não lembra do que sempre acontece naqueles filmes bobos que você vê?

– Mãe, não estamos num filme e essa é a única que chance que temos de escapar. Se eu não voltar dentro de uma hora…

– Não precisa nem acabar a frase! – repreendeu Loren.

– Estou indo então. – disse.

Alex então se retirou, dando às costas à família, e começou a andar pelo pântano denso procurando a cabana..

Andou à deriva por cerca de 20 minutos até que achou a cabana decrépita e íngreme. Com o coração acelerado devido ao medo, percorreu a mão pela fechadura e a girou. A porta se abriu lenta e ruidosamente e Alex jogou silenciosamente uma praga sobre ela.

Entrou lá dentro com cautela, o chão rangendo a cada passo que ele dava. No salão principal haviam 6 portas, cada uma dando em um cômodo. O que levaria uma pessoa a construir uma casa em um pântano? Olhando de dentro, a casa era enorme.

Alex entrou na primeira porta. Dera sorte. Ali havia uma cama, guarda-roupa, animais nojentos rastejando pelo chão e Alex levou a mão à boca para impelir um grito ao ver um cadáver mutilado no chão. Dando uma olhada nas gavetas de uma cômoda, encontrou um celular daqueles antigos. Apertou um botão e se espantou por ainda ligar e reclamou silenciosamente pelo aparelho soltar uma música que jurou que até os japoneses tinham ouvido.

Assim que o toque cessou, ouviu um barulho forte soando no cômodo ao seu lado. Teclou rapidamente o “190” e logo após, chamar.

Mas soltou um grito e deixou o celular cair no chão assim que a mão de seu tio abriu um buraco na porta de madeira. Em desespero, pegou o celular no chão e lutou para ligá-lo, mas não conseguiu fazê-lo. Jogou o celular no bolso apertado da calça jeans que vestia e encarou a janela. Segundos depois abriu-a e pulou no chão infestado de galhos e terra. Alex já corria novamente sem rumo procurando sua família.

Seu querido tio vinha logo atrás.

Alex se embrenhou na floresta densa olhando sempre para traz para conferir se Henrie estava vindo.

E o maldito estava.

Alex abria caminho entre galhos e arbustos, empenhando toda a força em suas pernas.

– Socorro! – gritou, tentando chamar a atenção de alguém. – Pai!

– Filho! – escuta-o responder de longe.

Seguindo a voz, começou a correr no sentido leste. A luz dourada do pôr do sol se refletia na copa das árvores, lançando sombras negras a todo o redor.

Soltou um grito apertado ao tropeçar em uma tora disposta no chão, chocando-se brutalmente contra o chão logo em seguida. Uma dor escruciante começou a se espalhar pelo seu pé e a ferida que se abriu disparou jatos de sangue em direção ao chão. Sentiu uma tontura nauseante e a vontade de desmaiar, mas pouco depois de tocar o chão, sentiu mãos fortes o levantarem.

– Ah, pai… – começou a falar, se interrompendo ao levantar-se e ver que quem o segurava era Henrie.

Tentou gritar, mas a mão de Henrie o cobriu, e dentro dela, um tecido úmido.

Clorofórmio.

Alex despertou.

Sentia-se como se tivesse sido pisoteado por uma manada de elefantes. As cordas em seus braços e pernas estavam bem presas. A mordaça em sua boca reprimia qualquer tentativa de som.

Henrie estava sentado rente à porta. Seu ronco ecoava por todo o cômodo. A máscara branca continuava em seu rosto, desta vez, manchada de vermelho.

Tomou um susto quando sua irmã Loren bateu na janela. Viu ela gesticulando “eu vou te salvar”. Alex tentou menear um não com a cabeça, mas ela não estava mais lá para o ver. Segundos depois, ouviu o som da porta da casa se abrindo. Passos lentos e cuidadosos e logo depois a porta se abriu. Loren recuou um pouco ao ver Henrie mas percebeu que ele dormia e penetrou a penumbra do quarto.

Vasculhando, encontrou uma tesoura largada em uma gaveta. Correu até Alex e cortou a corda de seus pés e logo após, a de suas mãos. Alex se levantou e agradeceu, e logo em seguida correram até a porta para fugirem.

– Henrie… – Alex sussurrou. – Cadê ele? – o corpo que dormia sobre a cadeira sumira.

– Vamos aproveitar e correr! – Loren ralhou. E correram, mas assim que passaram pela porta, Henrie pegou Loren pelo pescoço. Alex recuou e Henrie disse.

– Parado. Ou ela morre. – disse.

– Solta ela! – Alex gritou.

– Fique no lugar dela, e deixo ela ir. – ele disse.

Alex sentiu um baque ao ouvir aquelas palavras. Valia a pena? Ficar no lugar de sua irmã? Ela foi ali só para salvá-lo. Era seu dever.

– Como eu sei que vai cumprir sua palavra?

– Não sou mais seu tio querido? – disse sarcástico, e só então Henrie percebeu uma coisa. Alex não tinha pra onde fugir, então porque ele devia poupar aquela menina irritante que segurava?

Com a faca, abriu um rasgo profundo no pescoço de Loren. O sangue jorrou fundo. Alex gritou ao ver a cena. Olhou pra trás de si  e correu até a janela, mas Henrie já tinha preparado uma surpresa ali para ele.

Alex deu outro grito desesperado. Henrie achou exagerado. Não era para tanto. Era somente Allan, o “pai” dele que estava ali, pendurado em uma árvore.

Lágrimas percorreram o rosto de Alex quando viu seu pai pendurado em uma árvore. Suas entranhas e órgãos pendiam de seu estômago aberto e cascatas de sangue chegavam até o chão.

– Pai!

Gritou, e uma mão emergiu da escuridão bloqueando sua boca. Alex se virou assustado, encontrando sua mãe ali. Seus olhos estavam marejados. Ela havia visto. Alex a abraçou com toda a força, despejando suas dores em forma de lágrimas sobre a mãe.

– Porque, mãe? – suplicou, e fechou os olhos com força. Ouviu um arquejo da mãe, abriu os olhos e gritou. Os olhos de Henrie o encaravam furiosos. Alex segurou a mão da mãe. – Vamos fugir mãe! – disse, a puxando pela mão, mas Luce deu poucos passos e caiu no chão.

Alex recuou, dando gritos quando viu o sangue e a faca cravada nas costas de sua mãe. Henrie ajoelhou-se aos pés dela e retirou a faca, fincando-a novamente uma, duas, três vezes novamente, enquanto o sangue farto banhava o chão. Alex em choque, não parava de gritar. O ar de Luce aos poucos, se foi, e deu um último olhar para o filho.

Alex se ajoelhou.

– Mãe… não! – disse aos prantos. Henrie se abaixou novamente e retirou a faca das costas de Luce tentou golpear Alex, mas ele desviou e se levantou, passando a mão no rosto para amenizar o sangue da mãe em seu rosto enquanto começava a correr. Agora ele tinha certeza de duas coisas: lutaria até o fim para sobreviver e iria se vingar. Passou pela porta e correu até o carro estacionado a alguns metros em frente à casa. Olhou para trás, mas não viu Henrie.

Abriu a porta frontal do carro e entrou, vendo Henrie sair de casa com sua máscara suja de sangue no mesmo momento. Não tinha onde esconder, então, usou o corpo de Marcie para o encobrir. Não queria morrer. Significaria que todos tinham morrido à toa. Fechou os olhos com força e escutava gramíneas e galhos sendo quebrados por pés que se aproximavam. Cessou todos os movimentos do corpo e só ouvia o som se aproximar.

Se aproximava, aproximava, e de repente cessou.

Segundos agoniantes se passaram sem que nada acontecesse.

Foi quando a mão de Henrie agarrou a cabeça de Alex, puxando seus cabelos e arrancando gritos ensandecidos dele. Desesperado, Alex tateou ao seu redor, sabendo que o pai guardava uma chave de fenda no porta-luvas. Em meio ao pânico, conseguiu abrir o compartimento e tirou de lá a ferramenta.

Cravou-a de raspão nos braços de Henrie, que o largou imediatamente, soltando grunhidos apertados. Alex abriu a porta, jogando-a propositalmente em Henrie e saiu correndo em direção à floresta. Correu por um bom tempo, abrindo caminhos entre as árvores até que chegou em uma lagoa suja e obscura. Sabendo que Henrie estava perto, resolveu entrar ali e se esconder.

Submergia-se vagarosamente, com a água enlameada cobrindo-lhe cada centímetro do corpo. Deu uma longa respiração e andou para o fundo, até estar completamente submerso. Levantou-se só um pouco, para ser possível ter uma pequena visão do que se sucedia. Contou com a noite para omiti-lo.

Escondido, viu Henrie passar lentamente pela margem. Teria parado as batidas do coração se pudesse, então somente fechou os olhos e prendeu a respiração. Quando abriu os olhos novamente, Henrie não estava mais lá. Em um momento infeliz, lembrou o quanto aquilo parecia clichê. Pensou que exatamente nesse momento, Henrie deveria estar atrás dele. Com o coração acelerado, virou-se para trás lentamente, suspirando aliviado logo depois.

Logo virou-se para frente, gritando então ao ver Henrie parado bem à sua frente. Alex mergulhou, e foi nadando até á margem, saindo de lá e correndo com toda a velocidade que conseguia. Pensou em correr até a estrada e pedir carona, mas se lembrou de Tayler, que ainda estava por aí – e quem daria carona à ele nas condições em que estava?

Sangue, terra, água e barro se misturavam em todo o seu corpo. Supôs que se Henrie tivesse pegado Tayler, ele estaria num dos cômodos da cabana. Já sabia o caminho quase de cor, então correu até lá.

Seus pés e pernas doíam e entrou cambaleando na cabana.

– Tayler – sussurrou. – Tayler! – mas não teve resposta. Ouviu um barulho em um dos quartos e foi silencioso até lá. Abriu a porta e entrou. Viu Tayler encolhido em uma cama, os olhos brilhando ao ver Alex e sendo tomado pelo pavor ao ver Henrie passando pela janela. Tayler correu até Alex.

– Tayler, corre! – Alex chamou o primo até si. – Olha, querido, preciso que você vá para a sala e se esconda e só saia de lá quando eu te chamar. Se eu por acaso estiver demorando muito, preciso que você fuja até a estrada a peça ajuda a alguém, tudo bem? – viu o primo menear um breve sim com a cabeça – Então vai!

Viu Tayler passar por ele e fechar a porta, deixando Alex a sós com Henrie, que já estava totalmente dentro do carro.

Alex já tinha se cansado de fugir. Viu o tio se aproximar e olhar fundo em seus olhos. Ao olhar fundo para aqueles olhos tão familiares, Alex teve que desviar o olhar.

– Por que está fazendo isso? – perguntou.

– Eles são pessoas más. – disse por trás da máscara.

– Más!? Foi você que matou a própria esposa!

– Foram eles que me roubaram uma pessoa.

– Para com esse papo! Não roubaram nada seu!

– Roubaram você…

– Cala a boca!

– Roubaram você… de mim!

– Como assim? Do que você está falando?

– Esconderam de você, mas a muito tempo atrás, eu e a sua mãe Luce éramos apaixonados. Tivemos um caso às escondidas e dias depois, ela me contou da gravidez e do namoro com Allan. Decidiu se casar com ele para disfarçar e levou você junto com ela. Desde que nasceu então, chama ele de pai.

– Cala a boca! Para de falar! – gritou Alex, as lágrimas lhe invadindo e o possuindo com uma ferocidade gigantesca, num acesso de ódio e dor. – Você é um mentiroso desgraçado!

– Não fale assim comigo de novo, ou você terá que ser castigado.

– Maldito! Desgraçado! – enfatizou cada letra. – Matou todo mundo que eu amava! – disse, já olhando ao seu redor, procurando algo que pudesse usar para ferir Henrie. Lembrou-se da tesoura. Sabia que iria matá-lo naquele instante. Henrie se aproximou e Alex aproveitou para se aproximar da cama. Henrie chegou ainda mais perto e Alex pulou sobre a cama, pegando a tesoura pontiaguda e a levantando contra ele. – Não se aproxime! – ralhou.

– Porque, filho?

– Acha mesmo que eu preciso de um motivo? – gritou, e Henrie permaneceu calado – Você só pode estar louco mesmo!

– Estou mais são do que nunca. Sabia que eu sou um bom ator? Atacar meu filho não estava no planejado, mas é como um serviço que saiu melhor que a encomenda.

– Não entendo como pode ser tão sádico a ponto de matar até mesmo sua própria  esposa.

– Ela sabia. Peguei ela e sua mãe conversando sobre o assunto. Fingiu desde o início. Olhava na minha cara com toda a facilidade.

– E Loren?

– Simplesmente tive a chance.

Aquelas palavras embrulharam o estômago de Alex. Uma batida na porta desviou a atenção dos dois.

– Alex… – uma voz infantil sussurrou.

– Tayler, corra! Vá buscar ajuda! – Alex gritou e ouviu os passos apressados saindo do local.

Henrie aproveitou o momento para tentar golpear Alex, mas ele desviou, cravando a tesoura no abdome de Henrie. O sangue jorrou fino e lentamente, e Henrie, num esforço, cravou a faca na perna de Alex, fazendo-o soltar um grito grotesco. A ferida aberta derramou sangue abundante sobre a cama.

Alex caiu no chão, rastejando e com dificuldade, pôs-se de pé, apoiando na janela. Henrie se aproximou com passos lentos com a camisa se encharcando de sangue, segurando a faca na direção

Os passos lentos  de Henrie  só aumentavam o desespero de Alex, que fechou os olhos e esperou pelo golpe final. Deixou escapar um grito quando um tiro soou e segundos depois sentiu o corpo pesado e ensanguentado de Henrie cair sobre o seu. Assustado, abriu os olhos e se deparou com a cabeça de Henrie estourada por um tiro sobre sí.

Após outro grito, empurrou o corpo em direção ao chão, vislumbrando um policial parado enfrente à porta, com Tayler bem ao seu lado. Correu até lá e o abraçou com toda a força que restava. Logo depois abraçou o policial, lhe agradecendo por estar ali.

– Como chegou até aqui? – perguntou.

– Estávamos passando pela rua quando encontramos a criança correndo no meio da rua. Ele nos trouxe até aqui. – pegou o rádio em seu bolso e ligou. – Precisamos de reforços no pântano River, urgente. Tragam também uma ambulância. Tem muitos mortos. Repito. Urgente.

Alex não acreditava que finalmente tinha acabado. Desviando do corpo de Loren, saiu para fora da cabana. Olhava as árvores, galhos, arbustos, o carro de seu pai, e se lembrava de como tinha ido parar ali e embora a tristeza lhe assolasse, sentiu vontade de rir do quanto aquilo parecia clichê. Lembrou-se também de que em todos os filmes assim, o assassino sempre voltava para um último susto.

Olhou receoso para a cabana.

Deu graças à Deus porque isso não aconteceu.