Contos Minilua: O shopping (parte IV) #76

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O Shopping

Parte IV

Por: Waldenis Lopes

Matilde estava na frente do Mendo. Apreensiva. Várias pessoas se encontravam lá também. Elas estavam tentando entrar, mas não estavam conseguindo. Por alguma razão desconhecida, todas as entradas e saídas estavam trancadas. Tanto as do subsolo como as da garagem.

O que estava acontecendo?

Lá dentro, as pessoas que saltaram depois de muitas outras acabaram não morrendo, pois os corpos recém-falecidos amorteceram a queda. Mesmo assim, elas buscavam incessantemente a morte, como se fossem algum tipo de zumbi.

— Breno… –Matilde andava de um lado pro outro, encarando a fachada verde do shopping e observando as janelas dos muitos escritórios que existiam ali.

As pessoas que não conseguiram entrar começaram a ficar revoltadas! Elas também queriam desfrutar do local, da inauguração! Uma delas ligou para a polícia. E um murmuro de reclamações começou. Alguém pediu silêncio, e pediu com uma autoridade tremenda que fez com que todos ali calassem a boca.

— Vocês não perceberam? Ouçam!

Todos colocaram seus ouvidos para funcionar. Eles se aproximaram da entrada principal. A porta era de vidro, mas por fora era espelhado. Quem estivesse lá dentro podia ver o movimento lá fora, mas quem estava lá fora, via apenas o seu próprio reflexo. Eram gritos de socorro! Meio abafados, mas dava para entender claramente que era isso.

— Será que o shopping está em chamas?! –perguntou um homem alto num tom de desespero.

— Acho que não, se não veríamos fumaça saindo pelas janelas… –respondeu uma mulher.

— Alguém já chamou a polícia? Tem algo errado aqui! –perguntou outra pessoa.

— Ela já está a caminho.

Batidas e mais batidas na porta. O pessoal de fora então decidiu tentar arrombar. Qual o motivo para aquelas pessoas estarem tão desesperadas?

Uma, duas, três tentativas. Com pedras, chutes, empurrando, e até mesmo com o banco que se encontrava ali fora… Nada. Parecia que aquela simples porta de vidro era feita de titânio.

Matilde abriu sua bolsa e retirou um terço. Ela começou a rezar pelo seu neto. Ela fechou os olhos, e depois os abriu olhando para a torre do Mendo que dava acesso aos escritórios. Uma pessoa, não, tinha mais que uma. Estavam se aproximando dos vidros transparentes da torre.

— Gente! Ali em cima! –Matilde pensou que eles acenariam pedindo ajuda… Mas não.

Quando o aglomerado de gente olhou para a torre, aquelas pessoas que haviam subido até lá se atiraram contra as vidraças. Vidraças que ao contrário das portas, eram frágeis e quebraram facilmente. Elas buscavam a morte, e conseguiram.

Uma expressão de incredulidade estampou o rosto de todos que observavam a cena. Uma por uma das pessoas que se jogaram, se espatifavam no chão. Ali, bem perto dos observadores.

E os gritos começaram a ecoar em frente ao Isadora Mendo!

Os três amigos, Breno, Caíque e Fabrício corriam em direção à praça central, no térreo. Eles precisavam chegar às escadas que davam acesso ao subsolo. As pessoas não se jogavam mais, todas que se encontravam dentro daquele estabelecimento - com exceção daquelas que Breno conhecia - já estavam mortas. Bem, não tão mortas assim. Algumas ainda agonizavam no chão, umas ainda inteiras, porém quebradas, não conseguiam levantar; outras com membros espalhados, cabeças abertas, olhos saltados… O horror se encontrava no rosto dos rapazes.

E não importava para onde eles olhavam, todo o shopping era branco. Mas por qual motivo?

Pisando em poças de sangue e desviando dos cadáveres, os amigos chegaram enfim na praça central. Eles ouviram gritos vindos de fora do estabelecimento, por quê? Na entrada principal, os sobreviventes estavam angustiados, batendo na porta com todas as forças. Breno notou que lá fora tinha muita gente, todas com uma expressão clara de horror e choque!

— O que houve lá fora?

— Quem liga, Breno?! Bora logo pro tal subsolo! –disse Fabrício, inquieto, pulando sem sair do lugar.

Breno e Caíque se aproximaram da entrada e observaram o outro lado. Corpos estavam no chão, esmagados…

— As pessoas que não morreram com a queda foram atrás da morte… Na torre daqui. –disse Caíque, e continuou — Vamos, Breno. Não podemos perder mais tempo.

Os que sobreviveram ali encararam Breno.

— Podemos ir com vocês?! Já vimos que não tem como sair daqui… –disse uma garota, de pele morena e cabelos cacheados.

— Podem sim.

— Para onde vocês estão indo? –perguntou um rapaz, de cabeça raspada e brinco na orelha.

— Pro único lugar seguro deste shopping. –respondeu Breno.

— E como você sabe disso? O que garante que lá é seguro? –retrucou o mesmo cabeça raspada.

— Só estou confiando em uma pessoa, Thiago.

— Fica quieto, cara! Vamos acompanhar os meninos. –disse a garota morena.

O grupo de cinco pessoas se juntou aos três amigos. Breno conhecia a todos, mesmo que fosse apenas um “bom dia” ou um “olá”. Antes de eles saírem de perto da entrada, Breno deu uma espiada lá fora e viu sua avó. “A senhora estava certa sobre este lugar” pensou ele. E viu que ela estava com um terço na mão. “Reze por mim, vó.”

Matilde sentiu a presença de seu neto e velozmente se aproximou da porta. Breno a viu se aproximando e olhou para o rosto dela. Uma pena que ela não poderia enxergá-lo por causa do vidro espelhado. Mas ele podia vê-la. Ela espalmou sua mão direita sobre o vidro, Breno fez a mesma coisa. Por um momento seus olhares se encontraram.

— Eu te amo vó… –balbuciou ele.

Matilde sorriu.

Andando mais um pouco eles chegaram às escadas que descem para o subsolo.

— Ô, Caíque… Essa sua medalhinha tem um nome? –perguntou Fabrício, curioso.

— É a medalha de São Bento. A oração que recitei para mandar de volta ao inferno o pé de garrafa está escrita nela. –respondeu ele.

— Escrita toda? E cabe?

— Não seu bobo… São apenas as iniciais em latim. Eu decorei a oração em Português. A mulher com quem eu sonhei pediu que eu a trouxesse e que não me separasse dela. Ela nos protegeu, não foi?

— Sim…

— Parece que esta oração faz parte do ritual romano de exorcismo.

— Super bacana, velho… É por isso que eu não vou me desgrudar de você!

Todos eles começaram a descer vagarosamente as escadas. Inesperadamente, passos apressados começaram a ecoar pelo piso do térreo. O grupo se estremeceu. As três garotas presentes se arrepiaram e se abraçaram. Os dois rapazes desceram como atletas as escadas. Caíque, Breno e Fabrício permaneceram. Quem estava vindo nessa pressa toda era Kelda.

— Breno! Te procurei por todo este lugar! Que doideira! Precisamos sair daqui! Venha comigo! Eu conheço uma passagem secreta! –disse ela, estendendo a mão para Breno e ignorando a presença dos dois amigos dele.

— Passagem secreta? Cê vai mesmo acreditar nessa piranhazinha feiticeira, Breno? –disse Fabrício, cruzando os braços e tentando encarar Kelda, sem sucesso.

— Fica quieto, Fabrício… Claro que vou com você, Kelda… Mas claro, com os meus amigos e com o pessoal que desceu as escadas! –disse Breno, num tom sarcástico.

— Pessoal? Que pessoal? Era pra todos estarem mortos…

Breno a interrompeu.

— Ahh… Então você não sabia que quem eu conheço não sente vontade de se “atirar morro abaixo”… Interessante. E quem garante, estimada Kelda, que você também não pularia se não me conhecesse?

Kelda se silenciou e permaneceu olhando Breno com aquele olhar castanho duvidoso.

— Eu vou te matar, Fabrício…

Fabrício se espantou.

— Como assim a conversa parou em mim? Você que é a louca de ficar correndo atrás de mim na rua com aquela faca! Você é pirada, otária! –dizendo isso ele se escondeu atrás de Caíque.

— Venha comigo, Breno… Agora.

— Me obrigue!

— Tá bom!

Um dos rapazes apareceu das escadas.

— Tá tudo seguro lá em baixo galera… Só que tem um velho escroto lá… Mas ele parece inofensivo!

Quando Kelda ouviu a palavra ‘velho’ avançou sobre Breno com uma faca. Antes de ela agarrar Breno, algo fez com que ela voasse para trás e caísse no chão.

— De onde ela tirou aquela faca? E quem fez isso com ela? –perguntou Fabrício, notando que já não estava mais atrás de Caíque.

O rapaz que havia subido para falar que estava tudo bem no subsolo; Caíque e Breno ficaram extremamente surpresos. Kelda estava no chão. A faca caída longe. E Fabrício estava com a perna levantada.

— Eu fiz isso? –perguntou ele.

— Aham, cara! Foi tipo tartarugas ninjas! Hahaha! –disse Caíque - Vamos descer, antes que ela levante.

— Voltem… Aqui…! –sentindo uma imensa dor no estômago, Kelda não conseguiria se levantar por alguns minutos.

— Parece que você nem notou o que fez, né Fabrício? –Breno descia na frente dos outros.

— Sei lá, véi… Depois que eu a vi tirando aquela faca pra te pegar eu apaguei. Quando notei ela já estava no chão.

— Isso se chama adrenalina! Ou medo e ação… Inconsciente e ‘vai láaa’… Ah, vai saber! –disse o rapaz que descia junto com eles, já se sentindo o companheiro de todas as horas.

— Eu, hein… –cochichou Fabrício.

Todos estavam no subsolo, enfim. As três garotas, os dois garotos e o trio de amigos. O subsolo era muito diferente do resto do shopping. Normalmente ele teria também outras lojas, elevadores e escadas rolantes. E não tinha nada disso. As escadas por onde desceram eram comuns, em caracol e largas. E a cor branca não predominava ali em baixo. Ela não existia.

— Beleza –começou Breno –Onde está o velho ‘escroto’ que você disse que tinha visto?

— Uai, moço! Ele tava ali agorinha!

— É verdade? –dirigiu-se Breno às garotas. Elas concordaram.

— Bem, isso não importa. Vou apresentá-los aos outros que não os conhecem.

Breno começou às apresentações.

Camila era a morena de cabelos cacheados. Ingrid era a baixinha de cabelos castanhos. Gisele era a garota mais alta. Gustavo era o rapaz que avisou que o subsolo estava tudo bem. E Juliano era o garoto de cabeça raspada e brinco na orelha que retrucou Breno quando o encontrou.

— Ótimo.

— E agora o que fazemos? –perguntou Juliano.

Breno passou as mãos nos seus cabelos castanhos e suspirou.

— Eu não sei.

— Talvez ele saiba! –disse Caíque, apontando para frente.

E lá estava ele. O tal velho que o Gustavo havia falado. Ele aparentava ter pouco mais de cinquenta anos. Ele estava sentado, numa cadeira flutuante e fantasmagórica. Por entre os pilares que davam sustentação ao prédio aquele homem vislumbrava uma parede na sua frente. Ele a olhava com doçura, como se estivesse vendo uma obra-prima.

Parecia louco. Um barulho e a voz de Kelda ressoaram no andar acima deles. Ela estava na entrada para o subsolo, mas não conseguia descer. O grupo ficou receoso.

— Não se preocupem meus jovens… A bruxa não pode adentrar no meu território.

— No seu território…? –indagou Breno.

As meninas estavam atrás deles, tremendo de medo e sussurrando “Eu acho que ele é um fantasma! Kyaahh!!” Gustavo e Juliano estavam pasmos e mudos. Fabrício segurava os seus joelhos, para que eles não tremessem tanto! Os únicos calmos ali eram Caíque e Breno.

— Ninguém que tenha empatia pela Isadora pode entrar aqui, no subsolo.

— Eu sei quem é o senhor… Já vi uma foto sua com meu pai! –disse Caíque, intrigado com aquela visão do além.

— Devo lhe dizer que se parece muito com ele, jovem. Olhos castanhos claros, nariz arrebitado e cabelos pretos. Sem falar no olhar esperançoso… Seu pai ainda é um empresário?

— Sim, ele é…

Breno interrompeu.

— Quem é ele, Caíque?

Quando Caíque iria responder, o homem se colocou a falar.

— Olá, Breno. Eu sou Augusto. Augusto Medeiros.

Breno ficou inexpressivo.

— Esse nome deveria significar alguma coisa?

— Minha vó falava de você, doido! –começou Fabrício - Você é o dono deste Shopping!

AUGUSTO MEDEIROS. O EMPRESÁRIO DE OURO.

— Ouro? Porque ouro? –perguntou Gustavo.

— Pelo fato de ele ter conseguido grande fama para o shopping ao colocar o nome da suicida nele… –disse Caíque. –Sua esposa assumiu suas dívidas depois da sua morte, sabia? Ela foi à falência e deixou a cidade. O shopping agora é propriedade da prefeitura… Bem, vamos ver se ainda será depois de tudo isso…

O tom de voz de Caíque era bastante sério. Augusto continuou ali, flutuando em sua cadeira. As garotas ainda estavam receosas na presença do fantasma. Fabrício então decidiu tirar uma dúvida.

— Como o senhor morreu, seu fantasma…?

— Não foi uma morte natural se quer saber… Quatro anos depois da inauguração do Mendo, eu me suicidei. Bem aqui, neste subsolo.

Todos ali se arrepiaram! Calafrios dominaram os corpos de cada um deles.

— O boato que circulava era que você havia sofrido um acidente! Fora daqui! –Caíque ficou deveras surpreso com aquela informação.

Augusto então ficou desolado. Virou a cadeira para o lado, e começou a encarar a mesma parede. Ele então começou a falar sozinho, ignorando a presença do grupo de jovens ali.

— Eu a amava… Mas eu a matei…

Olhos arregalados prestavam atenção naquela voz rouca e pouco simpática.

— Minha amante… Ela amava a cor branca… Por isso pintei todo o shopping de branco… Apenas branco… Menos aqui em baixo… –ele se virou para os jovens – Eu me passei por herói depois de ter dado o nome dela para este lugar. Foi o crime perfeito! Mal sabia eu que ela voltaria para me atormentar…

Melancolia.

— Isadora estava grávida… Ela havia mexido com feitiçaria para nos manter juntos… E eu a matei. Ela morreu com um sentimento de vingança, com ódio… Ela não merecia a morte, mas eu… Eu sim. Foi justo eu morrer.

Arrependimento.

— Todos os dias preso aqui eu me sinto arrependido. Mas de nada adianta já que estou morto.

Seu olhar encarou os jovens e parou em Breno.

— Seu nascimento aqui provocou um distúrbio para a mente de Isadora. Por ela se sentir o próprio shopping, ela pensa que é a sua mãe. Você precisa detê-la. Você precisa me libertar deste sofrimento… Não só a mim, como a seu pai, a sua mãe e a todas as almas aprisionadas neste lugar!

— Minha mãe?! –exclamou Breno.

— Sim…

A cadeira sumiu e ele se colocou de pé.

— Isadora tem uma aliada aqui, não tem?

— Sim… Como sabe? –perguntou Caíque.

— Há dezoito anos ela tentou contato com alguma bruxa ou algo parecido, mas sem sucesso. Mas com a força de seu ódio ela conseguiu lançar no coração de todos o desejo do suicídio. Um sentimento que perpetuou na sua mente durante a vida. E ela conseguiu outra vez isso hoje.

— O que temos que fazer…? –queria saber Fabrício.

— A senhorita Mendo sem dúvida está tentando se materializar com alguma magia negra dessa pessoa que a está auxiliando. Vocês precisam encontrar o local do ritual e destruir os meios que o fazem. Ela não pode se materializar.

— O banheiro…! –soltou Breno. –Só pode ser lá… Afinal, nos separamos quando ela foi para o banheiro… Então ela sabia o que iria acontecer.

— Vocês ficaram loucos? –começou Juliano — Querem peitar um fantasma cheio de ódio desfazendo a sua macumba? Isso é impossível! Devemos encontrar um jeito de sair daqui, depressa!

— Oh, Zé! –Camila colocou as mãos na cintura e apontou para a cara de Juliano - Você por acaso não notou que NÃO tem como sair daqui? Que talvez a única saída seja enfrentar essa maluca do shopping, aí?!

— O que acontece se ela se materializar, senhor? –indagou Ingrid, com as mãos unidas encostadas no peito.

— Ela carregará todos, inclusive “seu filho” Breno… Para o inferno.

Aquilo os atingiu como uma bomba atômica tão potente que devastou a mente deles. O desespero tomou de conta do ambiente. Juliano se irritou e puxou Gisele pelo braço.

— Vamos sair daqui, meu bem! Não podemos fazer nada para ajudar! –e foi subindo as escadas, puxando sua namorada.

— É perigoso! –gritou Caíque.

— Perigoso uma ova! Perigo é ficar aqui com vocês planejando algo impossível de se fazer! Eu não quero morrer!!

Os dois chegaram ao térreo. Um vento assombroso que soava como vozes em sofrimento ecoou pelo local. Um grito agudo, de Gisele. Barulho de correntes ou algo metálico surgiu depois disso. Um “não” ensurdecedor saiu dos lábios de Juliano.

O grupo que permaneceu no subsolo se aproximou da escada. Olharam para cima. Uma cabeça desceu rolando. Ensanguentada. Desfigurada.

Adeus, Juliano.

Ingrid desmaiou. Camila caiu para trás. Fabrício procurou se sentar para não cair de tanto horror. Breno, Caíque e Gustavo se entreolharam e começaram a gritar. Eles corriam de um lado pro outro sem saber o que fazer.

— Eu disse que era perigoso! –gritou Caíque.

— Quem será que fez isso com eles? –gritou Breno.

— Eu nunca quis tanto a minha mãe como agora! –gritou Gustavo.

— A bruxa deve ter trago algum demônio ou algo parecido –disse Augusto, cruzando os braços —Vocês poderiam parar de gritar agora, meus jovens? Existe uma saída para isso.

Caíque parou e olhou para a sua medalha.

— É mesmo… Eu tenho isso. –e olhou para Augusto.

— Exatamente.

— Eu sonhei com uma moça, e ela disse para eu trazer isso. Eu já sabia do poder da oração desta medalha. E também acordei sabendo de fatos deste lugar… A moça do meu sonho… Ela…

— Ela é minha filha. –disse Augusto. –Ao contrário de mim e dos outros, ela não se matou. Ela usou de suas últimas forças para dar a luz ao seu primeiro filho, que ela já amava demais.

O olhar de Breno se perdeu ao ouvir aquilo.

— Miriam é um espírito bondoso. Ela morreu em paz. Mas está aprisionada aqui, como todos os outros.

Uma figura se aproximava da penumbra daquele subsolo. De vestido florido, com sapatilhas azuis e com as mãos entrelaçadas.

— Ela é uma alma inocente. Ela é bondosa. E ela só surgiria quando uma parte dela aparecesse no shopping. Quando um pedaço de seu coração entrasse aqui.

Os olhos de Breno se encheram de lágrimas. Realmente, ele tinha puxado os olhos de sua mãe; azulados e amendoados.

— Mãe!!?

— Breno, meu filho… Você se tornou um belo rapaz.

Sem abraços. Sem beijos. Apenas lágrimas e sorrisos. Breno estava feliz e triste ao mesmo tempo. Como ele queria poder tocar no rosto de sua mãe, poder sentir aquele colo, nem que fosse por alguns breves segundos. Mas era impossível. Ela era incorpórea. Porém, a troca de olhares já diziam tudo.

— Me perdoe, Breno…

— Não me peça perdão… Eu entendo.

Fabrício também estava chorando, até mais que Breno.

— Que coisa mais linda, caralho!

— Eu sonhei com você! –disse Caíque.

Miriam era jovem e bonita. Na casa dos vinte e poucos anos. Ela tinha cabelos ondulados bem escuros, o que ajudava a destacar seus belos olhos cor de céu.

— Eu pedi tanto a Deus que Breno tivesse um amigo como você! Alguém espiritualizado. Alguém cristão. Só assim eu poderia entrar em contato para que trouxesse a medalha.

— O que devemos fazer, mãe…?

— Todos aqui estão dispostos a cooperar? –Miriam os encarou.

— Pode ser só nós três –disse Fabrício –Pode dar certo se for só nós…

Caíque o interrompeu.

— Fabrício, você é um cagão! Não pode ver assombração que já começa a tremer!

— Eu gostaria de ajudar! –se prontificou Gustavo.

— Tem algo que você precisam fazer antes de subir até lá. –começou Miriam – Vocês precisam se despir de todo o medo e receio. Vocês precisam encontrar a fé nas suas almas, nem que seja um pouco dela. E também, vocês precisam enfrentar a si mesmos…

— Eu sempre fui ateu… Ver essas coisas agora me faz querer apenas fugir… Mas eu não tô a fim de morrer. Topo qualquer parada. –disse Gustavo, dando alguns passos em direção a Miriam.

— As garotas ficam.

— Mas, Breno!

— Vão ficar, Camila! Você e a Ingrid. Isso tudo começou por causa de mim. E os homens resolverão essa parada.

A pele morena de Camila ficou avermelhada. Aquela frase a deixou sem jeito.

— Caíque, o poder não está na sua medalha, o poder passa através dela, ela é apenas um canal, um símbolo de fé. A verdadeira força está no interior de cada um de vocês. O mal não suporta o bem. O mal não suporta aqueles que creem. É por isso que vocês precisam passar por esta prova, para que não sejam pegos e nem manipulados por ele quando saírem daqui.

— E que tipo de prova é essa? –Fabrício e os outros três rapazes se colocaram em fila, um do lado do outro.

— Vocês agora, visitarão seu interior… Sentem-se.

Eles se sentaram no chão.

— Fechem os olhos e se concentrem. Visitem seus corações e encarem seus próprios medos e angústias. Não se deixem levar pela raiva e nem por outros sentimentos negativos. Encarem o seu eu das trevas.

ESTÁ NA HORA DE LUTAREM CONTRA OS SEUS DEMÔNIOS!

Continua…

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