Lua de Sangue

Contos Minilua: O primeiro contratado #5

E neste segundo conto, a participação dele, Wagner Cezário. Leitor participativo, ele apresenta a sua história de hoje. Uma boa leitura!

Contos Minilua – O primeiro contratado

Novamente, em mais um tentativa fracassada, Marco não conseguiu emprego. Também pudera; com 21 anos, acabara de completar o ensino médio e passou a vida toda sendo sustentado pelos pais, os quais haviam morrido depois de um trágico acidente. Sozinho em uma pobre casa, e sem ninguém para recorrer, tinha que arranjar um trabalho antes que a economia que havia restado acabasse por completo. Por mais um mês tentou, sem sucesso novamente. Nesse momento já estava sem água, luz e comida.

– Já não agüento mais viver assim, eu daria minha alma para ter comida e faria qualquer coisa para ter um emprego! – gritou deitado em sua cama.

– Nesse caso já posso lhe adiantar comida. – escutou-se uma voz misteriosa.

Marco se levantou e viu um corpo se formando através das sombras. Quando percebeu, o rosto do ser estava todo deformado. Não conseguia gritar. E nem se mover.

– Você deu sua alma em troca de comida e aqui está. – Simplesmente apareceu um prato com o melhor banquete possível em sua frente – Agora vou lhe arranjar um emprego.

Como se estivesse hipnotizado, comeu tudo o que lhe foi oferecido. Quando terminou, o homem misterioso disse para segui-lo. Saíram de casa e para sua surpresa não estavam mais na cidade em que morava. Estava em uma cidade completamente diferente, que nunca tinha visto em sua vida. Além disso, estavam dentro de uma enorme empresa.

No mais alto andar, o estranho ser, que se autodenominava como Celso, disse que essa seria melhor oportunidade de emprego que podia oferecer. A empresa se chamaria “Nobody’s”, que, segundo ele, teria esse nome por ela começar do zero, sem nenhum funcionário. Logo após anunciou que Marco era o seu primeiro contratado. Celso chamou mais quatro pessoas que participariam na empresa: as faxineiras.

Ele atuaria como gerente, mas antes disso deveria procurar por pessoas especificas para trabalharem como funcionários. O que estranhou era o fato de que Marco deveria escolher os empregados, ele estava destinado a cumprir tal feito. Mas existia uma regra: só poderiam ser contratadas pessoas com 21 anos. Segundo Celso, essa era a melhor idade da alma.

Seu trabalho como gerente finalmente começou. Passava o dia todo sentado na sala de seu patrão, às vezes dava uma olhada para ver como estavam os funcionários. Semanas depois, Celso o pediu para que fosse a uma casa que era de propriedade da empresa, exigindo que lhe trouxesse alguns quadros que lá se encontravam. Chegando ao endereço determinado, percebeu que a casa abrigava um dos funcionários, e pelo horário certamente estava na empresa. Subiu ao segundo andar, abriu a porta com uma chave que o patrão lhe deu e avistou diversos retratos, cada um com a imagem de um funcionário, menos a do habitante da residência, Jorge.

Pegou os quadros que seu chefe lhe ordenou e voltou para a empresa. Entregou-os a Celso e antes que se retirasse, perguntou:

– Mais alguma coisa senhor?

– Quero que fique e presencie a cena que irá acontecer.

O que aconteceu deixara Marco apavorado: seu patrão olhava para a foto e dela saía uma coisa que nunca tivera visto. Celso sugou “aquilo”. Decidiu correr, mas a porta a sua frente se fechou.

– Como ousa querer fugir agora? Você trocou a sua alma por comida e sua vida por emprego! Deverá ficar ao meu lado por toda a eternidade. Ajudará-me sempre que eu precisar e possuir este rosto deformado. Você me trouxe as almas iniciais, e não vou parar por aqui. Preciso de mais para completar o ritual.

– Mas pra quê tudo isso? Quem é você? Que coisa é você?

– Só deve saber que eu necessito de almas a cada sete anos. E nesse ano o ciclo está se fechando novamente. Traia-me, e terá como punição o sofrimento eterno.

Marco só teve a obedecer. Com o passar dos dias voltava a casa, pegava alguns retratos e voltava para empresa. Entregava-os a Celso e assistia o ritual. Isso já virara rotina e a cada um que assistia mais desumano se sentia. E ele não estava errado.

Após ter pegado todos os quadros e presenciar o ritual diversas vezes, Marco obteve uma expressão vazia e estava ciente de tudo o que seu mestre precisava, como se já soubesse o que fazer. Como se tivesse feito isso durante a vida toda.

– Senhor, necessita de mais uma alma. Vamos buscá-la agora?

E então seguiram direto para a casa de Jorge. Para a casa dos retratos. Lá encontraram o jovem funcionário arrumando as malas para ir embora. O gerente e o presidente o cercaram. De repente, começou a jorrar de seu corpo, e o arrastaram até o segundo andar, ainda com vida.

Começava a sentir dor por todo o corpo e sangue não parava de escorrer pelo quarto. Uma alma saiu do empregado e entrou em Celso. Apareceram as quatro faxineiras, com a mesma expressão vazia de Marco e começaram a limpar a casa. Jogaram tudo fora, mas deixaram uma foto no local, com o rosto de Jorge e datada com 1989.

Celso adquiriu a forma de seu subordinado sugado, e não possuía mais o rosto deformado. Estava jovem novamente. Não precisaria ficar mais ao lado dos humanos por sete anos. Deixou Marco como presidente temporário até que precisasse voltar.

Passaram-se os anos e a empresa “Jorge’s” caminhava rumo ao sucesso, mas para isso precisava de novos funcionários. Funcionários na melhor idade da alma, que só poderiam ser selecionados pelo primeiro contratado.