Lua de Sangue

Contos Minilua: O homem no portão #165

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O Homem no Portão

Por: Vitor Basílio

– Será que é isso mesmo?

Afastei o rosto do olho mágico devagar. Abri a porta e fui verificar o que chamou a minha atenção. Um homem estava recostado no portão da minha garagem. Trajava um paletó preto, um chapéu marrom e calça bege. Ao seu lado, um saco branco cheio com os seus pertences, possivelmente. Talvez um andante que resolveu descansar antes de seguir com sua caminhada. Não fiquei incomodado, já que não pretendia sair com o carro naquele dia. Porém algo estranho me fez olhar aquele homem mais atentamente.

Ele estava morto. Recuei, instintivamente, e olhei ao redor. A rua estava calma, como em qualquer área residencial no meio da tarde. Então pensei que poderia se tratar de alguma brincadeira, e o homem, na verdade, fosse um boneco muito bem feito. Mas quem iria fazer aquilo? Meus amigos não eram dessas coisas. Quando brincam, são mais daquelas brincadeiras comuns, feitas na hora, nada elaborado. Pensei mais um pouco e cheguei à única conclusão logicamente possível, era um cadáver autêntico. Talvez o homem tenha morrido de um ataque do coração, assim que se sentou ali para um rápido descanso.

Observei o corpo por mais alguns instantes, ainda com um fiapo de dúvida preso no meu cérebro. Por fim, decidi entrar e chamar a polícia. Alcancei o telefone, e quando estava prestes a digitar o número, algo me fez parar e pensar: o que eu vou dizer? Que há um cadáver junto ao portão da minha garagem? No mínimo eles vão achar estranho e me arrolar como suspeito. Mas que outra coisa eu poderia fazer?

Arrastar o corpo para o meio da rua e esperar que os vizinhos liguem pra polícia? Seria pior, pois alguém poderia me ver e ter uma idéia errada, tornando minha situação ainda mais complicada. Sim, será melhor que eu mesmo ligue pra polícia. Evito problemas e resolvo logo essa situação.

– Central de emergência – disse uma voz feminina no outro lado

– Boa tarde. Meu nome é Fábio, eu moro no Jardim Bom Campo e encontrei o corpo de um andante no portão da minha garagem. Acredito que ele tenha morrido de um ataque do coração ou algo do tipo quando se sentou lá pra descansar.

– Só um momento, senhor – respondeu a atendente.

Enquanto esperava, fiquei pensando em como iria contar sobre isso para as pessoas. Inventando algumas coisas para transformar numa história de terror ou inserir elementos cômicos? Bom, acredito que tudo vai depender do público para o qual eu me dirigir. Se forem esclarecidos, sem falsos pudores, posso jogar um pouco de humor negro. Agora, caso sejam impressionáveis, predispostos a julgarem, coloco terror e imaginação. Ou talvez fosse melhor o contrário? Enquanto debatia, a atendente voltou:

– Senhor, no momento não temos viaturas disponíveis, pois está acontecendo um assalto ao banco no centro da cidade. Porém, assim que possível, mandarei uma para atendê-lo. Poderia me passar seu endereço?

Passei, agradeci e desliguei. O que fazer agora? Talvez seja melhor ficar lá fora pra explicar a situação, no caso de alguém aparecer. Quando eu toquei na maçaneta da porta, a campainha tocou. Olhei pelo olho mágico. Era o marido da vizinha da frente. Homem magro, cabelos grisalhos, gentil quando preciso e rude quando sempre. Levemente irritado, abri a porta. Ele me olhou de cima pra baixo, forçando um sorriso.

– Boa tarde, Fábio. O que é que aconteceu aqui? – perguntou olhando para o cadáver

– Boa tarde, seu Carvalho – respondi enquanto abria o portão – Sim, veja o senhor que “surpresa” me apareceu aqui. Esse homem, provavelmente um andante, resolveu se sentar aí pra descansar e acabou vítima de um ataque cardíaco. Quais são as chances de isso ocorrer por aqui, não é verdade?

Esbocei um sorriso amigável e percebi que o homem me olhou com certa desconfiança. Dentro de mim, uma sensação estranha começou a crescer e cortei a boa disposição que havia posto para lidar com ele. Seu Carvalho coçou o queixo com o polegar direito e disse:

– Já chamou a polícia? – seus olhos perscrutavam o cadáver

– Já sim. A atendente disse que está havendo um assalto no banco do centro e as viaturas estão todas lá. Assim que uma estiver disponível, ela vai mandá-la pra cá.

Seu Carvalho, então, me lançou um olhar acusador, quase como dizendo “muito conveniente pra você, não é?”. A sensação estranha de há pouco me tomou por completo e num súbito, disparei:

– O senhor tem algum problema com isso, seu Carvalho?

O homem deu um passo pra trás, assustado por eu ter conseguido ler seus pensamentos tão bem. Tratou de disfarçar, olhando seriamente pra mim, pro cadáver, e novamente pra mim. Pigarreou e disse:

– Não, Fábio, claro que não. Quem tem problema é a polícia, logo se vê. Onde já se viu tão poucas viaturas pra uma cidade grande como a nossa. Uma vergonha, vergonha. Triste país esse em que vivemos. Triste e sem conserto.

Disse as últimas frases olhando pro chão, com o olhar desolado. Depois se despediu e disse que ia acalmar a esposa, que tinha se assustado com o cadáver. Saiu apressado, sem olhar pra trás. Eu continuei ali, olhando para a casa de seu Carvalho. Virei para o cadáver. Aquilo já estava começando a me incomodar. Consultei o relógio. Dez minutos haviam se passado. Será que nenhuma viatura estava disponível? Entrei em casa e liguei novamente.

– Central de emergência – respondeu, provavelmente, a mesma atendente.

– Oi, meu nome é Fábio, moro no Jardim Bom Campo e liguei há pouco a respeito de um cadáver que está no portão da minha garagem. Eu queria saber se tem alguma viatura disponível pra vir me atender.

– Senhor, como eu disse antes, no momento as viaturas estão concentradas no assalto ao banco do centro da cidade. Assim que possível, mandarei uma para atendê-lo – disse a atendente, com um leve tom de impaciência.

– Sim, eu já sei, mas será que não há um policial disponível, talvez aqueles que andam de moto, apenas pra vir aqui e tomar ciência do caso? Não pode ser que todos os policiais estejam nesse assalto.

– Senhor, se houvesse alguém disponível pode ter certeza que eu mandaria imediatamente. Eu só peço a sua colaboração e paciência – respondeu a mulher, ríspida.

– Tudo bem, tudo bem. Vou esperar mais um pouco, mas espero que isso seja resolvido o quanto antes.

– Será, senhor, será. Boa tarde – retorquiu a atendente e desligou.

Devagar, coloquei o telefone na base. Andei até a porta e me curvei pra olhar pelo olho mágico. O cadáver continuava lá. Virei e fui me deitar no sofá. Enquanto pensava em tudo aquilo, adormeci. Porém, para mim, foi como se eu tivesse fechado os olhos por alguns segundos, e ao invés de passarem esses mesmos segundos, se passou um dia.

Ou metade, já que eu adormecera no fim da tarde. Levantei e saí para ver o cadáver. Assim que me aproximei dele, o cheiro da decomposição, ainda que leve, já se fazia presente. Aquilo foi a gota d’água. Voltei pra dentro e liguei pra polícia. E que surpresa quando ouvi o sinal de ocupado, e não a voz da atendente. Tentei de novo e a mesma coisa se repetiu. Peguei meu celular e tentei de novo. Nada, ainda ocupado.

Como um número de emergência pode estar ocupado? Se bem que não faria diferença nenhuma, pois se a polícia não aparecera até agora, será que ainda apareceria? Voltei pra garagem. Então notei que o cadáver não atraíra a atenção de mais ninguém além do velho Carvalho e sua esposa. E mesmo os dois não tinham mais aparecido por ali. Como um cadáver passaria despercebido assim?

Ainda mais agora, com o cheiro da decomposição se espalhando. Voltei pra dentro, a fim de tentar a polícia mais uma vez. Primeiro com o telefone fixo e depois com o celular. Nada, ainda ocupado. Sentei na porta, à espera. Do que? Eu precisava trabalhar naquele dia, mas como iria sair com o carro, se um cadáver bloqueava a minha garagem? Vou esperar mais um pouco, talvez seja um problema grave com a linha telefônica da polícia. Quem sabe se não foi algo criminoso?

Infelizmente, não pude saber. Nos dias que se seguiram, a linha da polícia continuou ocupada, não importava o horário em que eu ligasse. O cadáver também permaneceu lá, encostado no portão, me impedindo de ir trabalhar. O cheiro podre logo tomou conta do ar, mas não por muito tempo. Passados alguns dias, não consegui mais senti-lo.

Os vizinhos tampouco reclamaram. O bem da verdade é que nunca mais os vi. Pouco tenho saído de casa. Um dia, sei que alguém vai aparecer e levar o cadáver, ou o que sobrou dele. Enquanto isso não acontece, continuo aqui, esperando, esperando…