Contos Minilua: O Ciclo da Morte #256

E lembrando mais uma vez, que todos os temas são aceitos. O mais importante, é claro, a sua participação. E-mail de contato: [email protected]! A todos, uma excelente leitura!




O Ciclo da Morte




Por: Marlon Couto

ceifador

(…) o homem negro que veste um sobretudo bege e um sorriso cristalino diz, direcionando-se a mim: - Boa noite, jovem rapaz. Pensa em trazer alguém que ama e já se foi de volta à vida, não é? Eu posso fazer isso, porém, outra vida será ceifada. É uma troca justa, não acha?




PASSADO -13 DIAS ATRÁS

Cheguei em casa e vi papai deitado no chão. Sob sua cabeça havia uma poça vermelha. Uma auréola sangrenta. Sua camisa social apresentava manchas amarronzadas, secas. Braços abertos, como se estivesse crucificado no solo. A alguns centímetros da mão direita havia um revólver com cinco balas calibre 38. A sexta foi a que perfurou seu crânio. Papai era portador de doença grave em constante evolução e não passava uma noite sequer sem gemer devido às fortes dores.

Não possuía mais condições financeiras para arcar com os tratamentos que asseguravam sua saúde, se afogando em dívidas, submerso a uma tristeza infindável. Sempre foi o meu melhor amigo. Nunca pude pensar que um dia fosse capaz de ceifar a própria vida e me deixar assim, vagando, sozinho neste mundo obscuro. O suicídio é uma solução permanente para um problema temporário. Sem acreditar, me ajoelhei sobre o chão e balancei o corpo de meu velho na esperança de que o mesmo abrisse os olhos e me envolvesse em seu abraço. Em vão. Involuntariamente comecei a tremer, chorar, rezar, implorar para que papai voltasse. Nada.

Cheguei a pegar o revólver, abrir a boca e encostar o ferro em minha garganta. Fechei os olhos com força. Podia sentir o gosto amargo do sangue. O gosto amargo da morte. Desabei e recostei a cabeça sobre o peito do cadáver. Lágrimas desciam sem esforço algum. Ainda trêmulo, peguei o telefone e disquei o número da emergência. Os paramédicos chegaram num instante e não havia nada a ser feito. Jogaram uma lona preta em cima do corpo e me envolveram numa manta aconchegante, dizendo-me palavras de conforto.

Fui morar com mamãe, que me acolheu com todo o amor do mundo. Eu havia acabado de completar 19 anos. Antes da tragédia, a visitava diariamente e, se há alguma certeza neste mundo, é que o amor de mãe é a força mais sutil que existe.




... PRESENTE

cold night

Noite fria. A escuridão domina os quatro cantos da cidade, transformando-a em uma vasta e infinita sombra. Na entrada de um beco, me lamento embriagado, clamando por forças divinas que nunca acreditei, torcendo para que tudo seja um mero pesadelo e que, logo, eu acorde desse sonho infernal, dantesco. Finas gotas de chuva espetam o meu rosto, deixando-o gélido, pálido, fazendo com que as lágrimas se confundam com os pingos.

Minha mente voa longe demais para que eu me importe com a temperatura. Apesar de todo o temporal, o meu sangue ferve, incendiando meu corpo internamente e fazendo lavas correrem em minhas veias. Meus dias resumem-se em álcool, drogas e insanidade. Estou em ininterrupto estado de negação e meus pensamentos me torturam com lembranças de uma vida cheia de risos ao lado de meu herói preferido.

Avisto, ao longe, a silhueta de um homem. Vem em minha direção, aumentando a cada passo. Só consigo enxergar seus olhos e dentes. As poças de água refletem as luzes foscas de alguns postes e chacoalham quando os sapatos engraxados do misterioso ser passam por elas. Em minha mente, é só mais um drogado qualquer, mas, ao aproximar-se de mim, posso notar a sobriedade em seu olhar. Repentinamente, o homem negro que veste um sobretudo bege e um sorriso cristalino diz, direcionando-se a mim:

- Boa noite, jovem rapaz. Pensa em trazer alguém que ama e já se foi de volta à vida, não é? Eu posso fazer isso, porém, outra vida será ceifada. É uma troca justa, não acha?

- Desgraçado! Eu o amava! Quem você está achando que é para zombar de meus sentimentos? O que você quer? Suma daqui ou irei t…

- Primeiramente, sinto lhe dizer que estou aqui pelo fato de você ter me chamado incansavelmente. Se queres um conselho, jovem menino, eis aqui o meu: não clame por ajuda de forças superiores desconhecidas em momentos de desespero. Há mais coisas entre o céu e a Terra do que nossos olhos conseguem enxergar. Pode ser perigoso.

- Quem é você? - pergunto ofegante.

- O que importa? As pessoas criaram lendas sobre meus ancestrais e me chamam de feiticeiro, mas sou muito mais que isso. O que precisa saber é que tenho o dom de trazer os mortos à vida, mas, como eu disse anteriormente… Há um preço. Se deseja chegar em casa e dar um abraço forte em seu pai, conversar, rir e proferir palavras de afeto, basta tocar a minha mão e aceitar a condição de que outra vida será ceifada para ele retornar e, quando voltar ao lar, encontrará seu pai lhe esperando, sorridente. De braços abertos.

ceifador 2

Sem pensar, aperto a mão do “homem”. Na verdade, não muito confiante, mas até agora foi o único que conseguiu, de alguma forma, acalentar meus sentimentos e deixar-me um pouco otimista.
O homem volta para o beco escuro, sorrindo, e desaparece na escuridão.

Corro para casa. Confiante.
Abro a porta da sala lentamente. A madeira e os parafusos velhos estalavam, implorando por óleo em suas dobradiças.
- QUEM ESTÁ AÍ? – Papai grita de seu quarto.

Não acredito e vou correndo verificar se é ele mesmo. Ao chegar no quarto, vejo o meu velho. Sorridente, de braços abertos. Abraço-o com tanta força que quase o faço perder o fôlego.

- Ei, ei, ei. Quer matar o seu velho? Minha doença me deixa frágil, filho, não se esqueça. Não sou mais um garoto forte, como você.

A doença ainda está instalada em papai, mas e daí? Posso ouvir a sua respiração e sentir seu coração bater como um tambor.

- Me desculpe, papai. Estou com saudade. É só isso. – eu disse.
- Tudo bem, meu filho. Que cheiro de álcool é esse? Andou bebendo, meu amor? Não faça isso, quer ficar que nem seu pai, doente? Vá deitar! Você está gelado. Eu te amo. Se precisar de algo me chame, não consigo dormir devido a essas dores infernais que me atormentam todas as noites. Venha aqui me dar um beijo.

Beijo-o no rosto e digo que irei até a casa de mamãe buscar algumas roupas e que logo estarei de volta. Ele assente com a cabeça. Cima, baixo, meio.
Meu coração está feliz. Caminho até a casa de mamãe para pegar meus pertences. Ao entrar, escuto o som da TV, mas não há ninguém assistindo. Vou até o quarto. Mamãe está deitada em sua cama.

Acendo a luz e me aproximo para dizer que tranque a porta assim que eu sair.
- Mamãe, acorde.
Mamãe sempre teve o sono pesado.

- Mamãe, acorde - repito, e coloco a mão em seu braço para que ela desperte. Estou frio, mas mamãe está mais gelada do que eu. Subitamente me lembro do homem negro com sobretudo bege.
PENSA EM TRAZER ALGUÉM QUE AMA E JÁ SE FOI DE VOLTA À VIDA, NÃO É? EU POSSO FAZER ISSO, PORÉM, OUTRA VIDA SERÁ CEIFADA. É UMA TROCA JUSTA, NÃO ACHA?

- Mamãe! Acorde, mamãe! - A chacoalho, mas ela não se mexe e seu corpo não responde aos meus empurrões. Sou invadido pela mesma sensação de quando vi papai estirado no chão. Não pode ser! Não pode ser! Rapidamente corro até o telefone e chamo a emergência. Paramédicos tentam reanimá-la no local. Não há pulsação. Não há batimentos. Não há VIDA. Recosto-me no sofá e choro. Incansavelmente.

Bombeiros me levam até em casa e, ao chegar, abraço meu velho pai, e digo com olhos d’água: - ela se foi, papai, Mamãe se foi. Ela está morta. Papai me abraça, sua expressão permanece a mesma. Uma lágrima solitária escorre pelo seu rosto e ele se pergunta em voz alta: - por que ela, meu Deus? Por que não eu? O mundo às vezes é injusto, meu filho.

Meu rosto está avermelhado e eu não consigo acreditar. As lágrimas são tantas que chegam até a gola de minha camisa. Ceifei a vida de mamãe sem saber. Papai está doente, à beira da morte, e isso tudo é minha culpa. Agora está de tarde, ontem foi um dia conturbado. O velório aconteceu há alguns minutos e o corpo já está a sete palmos do chão. Mamãe estava linda, no seu melhor vestido. Papai não quis vir vê-la, pois afirmou que seria demais para ele. A tristeza de meu velho só aumentou e fui o culpado sem saber. A ilusória felicidade foi uma passageira veloz.

Deixo flores em cima da sepultura e vou para casa. Ao chegar, vejo papai deitado no chão. Sob sua cabeça há uma poça vermelha. Uma auréola sangrenta. Sua camisa social apresenta manchas amarronzadas, secas. Braços abertos, como se estivesse crucificado no solo. A alguns centímetros da mão direita há um revólver, com cinco balas calibre 38. A sexta foi a que perfurou o seu crânio.

Papai era portador de doença grave e não passava uma noite sequer sem gemer devido às fortes dores. A doença evoluía, mamãe acabara de morrer e meu nobre velhinho não possuía mais condições financeiras para arcar com os tratamentos que asseguravam sua saúde, se afogando em dívidas, submerso a uma tristeza infindável. Sempre foi o meu melhor amigo. Agora estou aqui, sozinho, neste mundo obscuro.

Sem acreditar, me ajoelho sobre o chão e balanço o corpo de meu velho na esperança de que o mesmo abra os olhos e me envolva em seu abraço. Em vão. Involuntariamente começo a tremer, chorar, rezar, implorar para que ele volte. Nada. Pego o revólver, abro a boca e encosto o ferro gelado em minha garganta. Fecho os olhos com força e posso sentir o gosto amargo do sangue de papai. O gosto amargo da morte.

É impossível trazer de volta o que já foi. Cada ser tem seu tempo e destino. Não devemos interromper o ciclo natural das coisas, pois tudo pode se resumir em caos. A fé pode ser nossa melhor amiga, mas também pode nos cegar em momentos de fraqueza. Eu amo vocês, papai e mamãe. Esperem por mim, estou chegando. Aperto o gatilho.

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  1. Marina Lace

    2 de janeiro de 2016 em 19:17

    MUITO BOM,EU RECOMENDO ESSE C0NTO

    • Marlon Couto

      10 de junho de 2016 em 04:53

      Obrigado, Marina! <3

  2. Carlos Eugenio

    9 de novembro de 2015 em 20:43

    muito bom esse conto e bem trágico também!

    • Marlon Couto

      10 de junho de 2016 em 04:53

      Obrigado, parceiro! 🙂

  3. Guilherme

    16 de outubro de 2015 em 23:43

    Bom conto… e no final o garoto acaba também se matando…

    • Marlon Couto

      10 de junho de 2016 em 04:53

      Sem spoiler, cara! hahahha Mas obrigado! <3

  4. Vini Holmes

    13 de outubro de 2015 em 00:56

    Gostava da época que a página ficava preta 😛

  5. Tatiane Vitorino

    8 de outubro de 2015 em 09:44

    Conto muito bom!

  6. Douglas

    7 de outubro de 2015 em 23:32

    Nao tem como apagar a luz.

    • Jeff Dantas

      7 de outubro de 2015 em 23:39

      Nossa, que estranho! Deixa eu dar uma olhada… 🙂

  7. Jeff Dantas

    7 de outubro de 2015 em 20:55

    Sério! Até hoje, me perguntam, se eu tenho medo de cemitérios…hehehe http://luadesangue.com/resize/cache/c2l0ZTovLzIwMTUvMTAvY2VpZmFkb3IuanBnfDYzNHgzNTYuNjI1.jpg

  8. Jeff Dantas

    7 de outubro de 2015 em 20:54

    Um dos melhores contos! Vale a pena curtir… http://luadesangue.com/wp-content/uploads/2015/10/ceifador-2.jpg

12 Comentários
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