Lua de Sangue

Contos Minilua: O apagão #133

Bem, e desde já, sinta-se a vontade para participar! O e-mail de contato: Jeff.gothic@gmail.com! A todos, uma excelente leitura!

O apagão

Por: Nelson Pires

Eu nunca acreditei em nada sobrenatural. Sempre ouvia fatos e acontecimentos de outras pessoas, mas nunca tive algo que acontecesse comigo para que eu pudesse acreditar nessas coisas, mas hoje eu não penso mais assim. Foi devido a uma coisa muito perturbadora que me acontecera, algo que realmente fugiu da compreensão racional, algo macabro por essência.

Eu quase nunca sonhava, mas certa noite eu me pego tendo sonhos estranhos, apareciam flashes de algumas cenas que eu não tinha a menor ideia de onde era ou o que significava. Do que eu me lembro, primeiro tinha muitas pessoas e depois tinha um lugar frio, úmido, tinha uns flashes de luz vermelha, e também tinha algo vindo em minha direção, não tinha como descrever, estava escuro para tal feito.

Acordo de madrugada suando frio, com uma respiração profunda, como se algo tivesse trancado minha respiração. Não dormi mais. Passei o resto da madrugada em claro, apenas esperando o dia clarear.

O dia enfim chegou. Fui para cozinha comer alguma coisa, tomei meu chá e após fui para a sala de estar. Passei minha manhã lendo alguns papéis velhos e ouvindo música bem alta. Passada a manhã, me arrumei e fui trabalhar. Tudo bem normal, nada fora da rotina.

Passei a tarde inteira tentando me lembrar das cenas do meu sonho, me esforçando ao máximo para tentar descrever as coisas que eu tinha visto. Anotei todos os detalhes de que eu consegui lembrar, mas mesmo assim, ficou muito confuso, faltava algo para poder entender o que aquilo significava.

Meu trabalho não foi muito produtivo naquele dia, não pude me concentrar em mais nada a não ser tentar entender o porquê daquele sonho, poderia até dizer que tive um pesadelo.

Eu estive em muitos lugares na minha vida, algum desses lugares deveria estar relacionado com aquilo que eu vi, mas não importava o quanto eu tentasse me esforçar para lembrar, era uma luta perdida.

As horas da minha tarde se acabaram junto com o dia de trabalho, fazendo-me ir para a faculdade, para mais uma noite chata de aula.

Chego cedo como de costume, não havia ninguém na sala. Os ventiladores estavam ligados fazendo a sala ficar arejada, as janelas estavam abertas também. Eu sentei no meu lugar de costume, nada fora da rotina, tudo conforme eu sempre fazia. Sentei e fiquei observando atentamente os pombos que ficavam voando pelo lado de fora da janela, tinha poucos por sinal.

Assim fiquei até o primeiro colega chegar, e em seguida uma colega, todos eu cumprimentava com um saudoso ‘oi’, fazendo-os me responderem por igual. Após certo tempo, todos já estavam em sala de aula, já não me lembrava de quantos ‘oi’ eu tinha oferecido.

Era aula de psicologia, na qual a professora não tomou tempo para a matéria, ou seja, pude conversar com meus amigos que sentavam a minha frente e atrás de mim. Conversamos sobre coisas aleatórias, nada fora do normal.

Não via a hora dessa aula acabar para poder sair, durante o intervalo, para esticar a perna e ver como estavam as coisas pela faculdade.

A aula acabou. Sai por pouco tempo, o suficiente para conversar com pessoas que eu não conhecia, e em seguida voltei para a sala e respectivamente para o meu lugar. Meus amigos logo retornaram também e pudemos ficar conversando por mais um tempo, antes da próxima aula começar.

Eu não comentei com ninguém sobre o que eu tinha sonhado apesar disto estar me deixando um pouco preocupado, mas ninguém percebeu que eu estava estranho então eu não tinha que falar nada, apenas segui com a rotina.

O professor chegou fez a chamada e preferiu não dar aula, ficou sentado durante todo o período.

Um pouco dos alunos resolveram ir embora, e outros, inclusive eu, resolveram ficar na sala conversando.

Comecei a sentir algo estranho no ar, algo parecia estar querendo me dizer alguma coisa, confesso que fiquei um pouco assustado com aquela sensação. Quem sabe era o resultado de ficar pensado sobre o que eu sonhei, que estava me deixando paranóico.

Começou a chover. Fiquei atordoado ao ver através da janela da sala, que dava em direção ao telhado do próximo bloco, algo que parecia como uma sombra se movendo pelas telhas. Permaneci imóvel enquanto via aquilo. Aquela sombra começou a vir em direção à janela da sala, meus olhos se arregalaram, senti um frio na barriga. Um arrepio seguiu pelas minhas costas. Minhas pernas travaram. O que poderia estar acontecendo comigo?

Eu observei que meu colega percebeu o meu comportamento, pois não consegui disfarçar, não pude tirar os olhos daquela sombra, que por sinal, já estava subindo pela janela. Senti uma mão apertando meu braço e em seguida me balançou com força. Eu senti o ar chegando até meus pulmões, que estavam vazios há um minuto.

Meu colega perguntou se eu estava bem, respondi que sim.Mas deu pra perceber que ele viu que tinha algo de errado comigo.

Logo após esse susto, retornei os olhos para a janela e já não tinha mais nada lá, apenas a chuva caindo constantemente.

A chuva ficou mais forte e raios começaram a aparecer no céu. Eu podia sentir algo diferente no ar, mas o que poderia ser? Por que não podia ser apenas mais um dia normal de aula! Eu estava deixando o psicológico tomar conta de meus sentidos, o medo era algo que me perecia distante por muito tempo, mas que agora eu já podia sentir suas raízes sendo cravadas em mim.

Respirei fundo e decidi retornar para a conversa com meus colegas… Quando de repente…

Viu-se pela janela uma forte luz que atravessou todo o céu, e em seguida a eletricidade acaba, deixando todo o quarteirão no escuro.

Pela faculdade inteira deu pra ouvir a falaria do pessoal devido aquele momento único.

Todo mundo se encontrava no impenetrável mundo da escuridão naquele momento. Eu não acreditava no sobrenatural, mas sei lá, todo mundo dizia que no escuro, criaturas apareciam e que coisas fora do normal aconteciam. O que será que poderia acontecer nessa escuridão? Que tipo de criatura poderia estar vagando entre os alunos naquele momento obscuro?

Eu não pude deixar de pensar sobre o que eu tinha visto há pouco.

O barulho do trovão aquietou a voz de todos, fiquei apreensivo ao ouvir esse som, não era um trovão normal, tinha algo a mais.

Eu e João saímos da sala, descemos as escadas e nos deparamos com a escuridão, que era rompida por constantes raios.

Nós podíamos ver uma imensa multidão de alunos, muitos andando sem rumo outros conversando em grupo.

Meu amigo e eu decidimos então dar uma vasculhada pela faculdade a procura de algo fora deste plano.

João gostava dessas coisas de sobrenatural, eu não acreditava, mas eu também gostava dessas coisas. E quem sabe nessa nossa caminhada pela faculdade eu não teria uma experiência com o sobrenatural.

Fomos em direção ao bloco três. Subimos as escadas, e nos deparamos com dois longos corredores imersos em uma profunda escuridão.

João então sugeriu que nos separássemos, e que se um dos dois encontrasse algo, voltaria correndo avisar o outro. Concordei com ele. A chuva estava mais forte do que nunca, os raios estavam ficando mais frenéticos e seus respectivos trovões estavam ficando cada vez mais forte, sentia-se até as paredes tremerem em alguns momentos.

João saiu primeiro seguindo o corredor de frente as escadas, restando-me apenas o corredor da direita. Eram corredores extensos e com muitas salas e com certeza custaria vários minutos até vasculhar todo aquele andar.

Comecei a caminhar pelo corredor de forma natural. Entrei na primeira sala, mas não tinha nada. Na segunda também. Na terceira igual à anterior, vazia sem nada de interessante. Assim ocorreu com a quarta e quinta sala. Mas tudo estava para mudar no instante que eu saio da quinta sala. Ao sair pude ver algo batendo na porta da sala número seis, de primeira pensei que fosse João tentando me assustar, por isso não dei importância. Segui pelo corredor em direção à sala número seis.

Quando toquei na maçaneta da porta um raio clareou todo o corredor, como se a luz tivesse voltado. Encolhi-me um pouco, esperando pelo som do trovão, mas o som não veio.

Girei a maçaneta e abri a porta. Tinha algo estranho nesta sala, algo que me fez sentir mal. Quando dei o primeiro passo dentro da sala ouvi um som bem agudo, forçado, o qual atravessou meus tímpanos de uma forma amedrontadora deixando um chiado incomodo na minha cabeça. Meu coração começou a bater mais forte. Eu sentia que algo ruim aconteceria. Mas já estava muito envolvido para sair da sala.

Eu percebi uma coisa saliente no canto da sala. Então perguntei se tinha alguém ali. Mas não houve nenhuma resposta. Então me lembrei que não estávamos procurando por alguém, e sim por algo.

Perguntei então se havia alguma coisa naquela sala. E nesse exato momento pude sentir um forte vento soprar em minha direção, com ajuda dos relâmpagos eu pude notar que as janelas estavam fechadas, então de onde vinha aquele vento? A porta bateu com força, me virei rapidamente em direção a ela, assustado. Engoli seco.

Então pude ouvir uma voz, que vinha do canto da sala e quando virei para ver o que era, pude ver uma garota caída ali. Corri para ajudá-la. Ela estava fria como um bloco de gelo, sua pele era lisa e sua roupa estava toda rasgada. Muitas coisas se passaram em minha cabeça ao tentar imaginar o que poderia ter acontecido para ela estar ali toda maltrapilha, e chorando por sinal.

“Tire-me daqui, por favor!” Ela me pediu. Eu perguntei o que tinha acontecido a ela e ela me respondeu: “Tire-me daqui, por favor!”

Peguei-a nos braços. Ela me abraçou forte e me deu um beijo gelado no rosto, gostoso por sinal, então sai da sala.

Ao sair fiquei aterrorizado…

O corredor não era o mesmo. Estava cheio de água pelo chão. As paredes estavam manchadas de mofo, e escorria por elas um liquido viscoso vermelho, não tive dúvida do que era, certamente era sangue que vertia por aquelas paredes. E havia um cheiro forte de alguma coisa podre. As janelas pelo corredor deixavam a luz dos raios penetrarem naquele lugar, e devido a toda aquela mancha de sangue pelas paredes, a visão que eu tinha era como se estivessem disparando flashes vermelhos que me faziam ficar cada vez mais atormentado.

PELO AMOR DE DEUS O QUE ESTA ACONTECENDO AQUI!!!!!

A garota então disse: “Rápido, antes que ele volte…” perguntei quem estava voltando, mas ela repetiu a mesma frase.

Eu gritei pelo nome do João, mas ele não respondeu. Eu já estava chegando ao final do corredor. Podia ouvir o som de toda essa água escorrendo pela escada como uma cachoeira.

Outro raio clareou o ambiente infernal que eu me encontrava, e logo tudo ficou escuro… O som do trovão veio e outro raio clareou novamente. Um cheiro forte de coisa podre dominou meus sentidos. Senti algo mole em meus braços. Parei de andar e olhei em meus braços. Eu me sinto muito atordoado ao ter que lembrar dessa cena.

Eu pude ver que eu já não carregava uma linda garota maltrapilha e desesperada, e sim um corpo de um cadáver podre sem roupa e se despedaçando em meus braços. Naquele momento, eu confesso que a única coisa que eu queria fazer era mijar nas calças. Fiquei olhando para aquilo em meus braços, ela com dificuldade virou a cabeça para olhar para mim.

Seu rosto sem pele, uma cor cinza esverdeada, e no lugar de olhos tinha uma pequena quantidade de uma massa verde que escorria pelos cantos das órbitas. Sua boca sem dentes e caída feito um pudim, falou com dificuldade as seguintes palavras: “Me tire… daqui… por… favor!”.

Meu cérebro parecia que ia derreter. Naquele momento o nojo, o medo, o terror, o pavor, a alucinação se juntaram para me levar deste mundo para o outro. Eu só sentia que ia ter um infarto naquele momento, pois meu coração não ia suportar a nem mais um minuto naquele lugar.

Eu não conseguia jogar aquele corpo. Cada vez que eu tentava tirar, ela se agarrava a mim e dizia para tirá-la dali. Foi então que eu pude ver, no final do corredor, algo vindo em minha direção. Os raios iluminando aquele lugar, as manchas de sangue nas paredes tornando tudo vermelho, e aquela coisa vindo em minha direção…

QUE INFERNO!!!!! O QUE É ISSO?!!!

Eu juntei minhas forças e corri em direção a ultima janela. E de lá eu joguei aquele corpo. Meus braços ficaram encharcados por uma massa pútrida que me fez estremecer completamente. Aquele corpo ao se chocar na rua, com um barulho de algo se rasgando, se partiu no mesmo instante espalhando carne podre por todos os lados, lavando a rua com sangue e deixando seus órgãos por toda parte.

A chuva se encarregou de espalhar toda aquela pasta podre por toda a rua.

Virei-me e vi aquela criatura, ali parada olhando pra mim. Cai sentado, por não suportar tanto terror. Seus olhos estavam pegando fogo, pude ver a ira em pessoa. Em todo seu corpo pude ver ossos salientando-se pela sua pele rasgada e roxa.

Aquilo começou a se aproximar, e eu não sabia fazer mais nada a não ser gritar, gritar como nunca havia feito antes, berrando um grito de morte, um grito de horror. Aquela criatura veio em minha direção e quando ficou na minha frente… Eu olhei em sua cara maligna, ele levantou o braço e em seguida só pude sentir algo batendo forte em minha cabeça.

Depois eu acordei no hospital, um dia após. Acordei assustado. Meus pais estavam ali comigo, chorando de alegria por me ver acordar.

Perguntei sobre o João. Ele estava esperando do lado de fora do quarto. Pedi que o chamasse, ele veio e eu o perguntei sobre o que tinha acontecido na noite passada. Ele respondeu que ouviu meus gritos e voltou correndo para onde eu estava, e me viu caído no chão ao lado da ultima janela do corredor, que por sinal estava aberta deixando a chuva entrar.

E que não sabia o que tinha acontecido, mas que a única coisa estranha que ele percebeu foi que eu tinha uma marca de batom no rosto, e perguntou rindo se a garota que tinha me beijado não gostou e pulou da janela.

Até hoje eu não consigo entender, e nem quero, o que aconteceu naquela noite, apesar de que foi a primeira e ultima experiência paranormal que eu tive. Por enquanto…