Lua de Sangue

Contos Minilua: Naquela noite #160

 Pois é, e para participar, é muito fácil. Para tal, envie o seu texto para: Jeff.gothic@gmail.com! A todos, uma excelente leitura!

Naquela noite

Por: Amélie Poulain

Incrível como em algumas horas toda uma vida pode mudar. Como os sonhos podem morrer por causa de um milímetro. Como a inteligência e lógica podem ser destroçados por aquilo que apaga o fogo da morte. Como a mais linda das criaturas pode… Sucumbir diante da impureza e escória. Como a felicidade cômica pode virar a tristeza melancólica… E tudo isso. São marcas que não saem, sangramentos que não param, tormento que nunca vai embora.

 – Não tente me enganar, essa máquina é viciada, porra, viciada!

– Vá se danar, Carlinhos, você é que não tem dinheiro pra pagar a aposta!

– Seu idiota! Olha isso aqui, a polícia tá a um passo de descobrir que não é casa strip, e sim um casino!

Eu olho com divertimento para a briga entre o dono do casino e o tal de Carlinhos. Carlinhos é um homem de cerca de 27 anos, de corpo normal, como o de qualquer jovem que quer sair por ai cheirando cola e vivendo uma vida normal… Tem um porém: ele é viciado em jogos de azar.

– Porra, é por isso que chama caça-níquel, é enganação, enganação, enganação!
– Cala a boca e paga meus 25 mil, seu merda!- Grita o dono do cassino.
Um silêncio se abre pelo casino. Ninguém fala, apenas olham para Carlinhos.
– Você tá ficando doente, eu nunca deveria ter te trazido aqui!- Gritou mais uma vez, o dono do casino.

E então chega uma mulher com um criança nos braços. Ela deve ter uns 40 e poucos anos, mas muito bela. Tem cabelos negros na altura da cintura e um corpo escondido por roupas florais típicas de senhoras. Ela começa a implorar para Carlinhos que pare, até que…
– Meu filho, por favor…- Implora a mulher, de joelhos.

Nenhum som. Além dos soluços de choro da mulher e o choro da criança.
– Eu não aguento mais!- Diz ela, bem baixo, só pode ser ouvido por causa do silêncio.- Vocês são pai e filho! Pai e filho!

Carlinhos olha para o dono do casino e começa a fazer cara de choro.
Ela se aproxima do senhor e diz:
– Você escolheu mexer com esse tipo de coisa mas nunca deveria ter envolvido nosso filho nisso, Ricardo!

– Era brincadeira de criança!- Responde o homem.- Mas ele ficou viciado!
– Sua culpa! E então aquela mulher insignificante que tem nos casinos, cheia de maquiagem… Espere… Não é mulher.

– Tá bom, tá bom tá bom! Sem clima pra festa. Estamos encerrando nossas atividades por hoje…
Carlinhos enxuga as lágrimas.
– Eu não quero ficar aqui.

E então o dono do casino, Ricardo, começa a chorar.
– Meu filho, volte!- Grita.
Mas Carlinhos está da porta pra fora.

Eu sou curiosa… Algo me diz que essa história tem mais… Vamos ver…
Carlinhos sai fumando um cigarro, está indo em busca de sua namorada, Bianca. Como sei? É a foto saindo da carteira dele com o nome, é a mancha e batom em sua camisa, é o sorriso tímido em seu rosto.

Ele anda apenas alguns metros até um prédio, e eu vou atrás.
O prédio é um daqueles antigos, muito pacato, a única estranheza é a ausência de um porteiro…
Entramos na portaria, como já disse, sem porteiro. Ela tem uma parede cheia de botões e nomes… Dr. Carlos(coincidência?), Dona Isaura, Sr. Licurgo Passos, Tiago Moreira, Antônio Boamorte (e família), Bianca Soares… Bianca!

Ele aperta o botão e se aproxima da parede, e eu procuro prestar bastante atenção no que eles dizem.
– Qual é a senha?- Pergunta ela com ironia.
– “Você é o amor da minha vida”…
Ouço um tipo de suspiro vindo dela.

– O que posso fazer se não consigo ficar longe de você?
Ele se dirige ao elevador, parece confiante… Eu sigo… Como boa espectadora. Ele entra e aperta no 3° andar. E então, algo inesperado acontece… Ele tira do bolso uma caixinha de veludo vermelho, e lá dentro há um anel… Um anel de noivado…

Os olhos dele brilham e o sorriso tímido volta… Tudo o que já presenciei se torna tolo ao ver aquilo, simples… Encantador…Saímos do elevador e vamos em direção a porta “45”, ou seja, o apartamento “45”. Quem abre não é ela, é outra pessoa, que recomenda que ele faça silêncio. Ele não está surpreso, mas se faz de surpreso.

Entramos eles começam a fazer uma festa. Ele faz cara de quem não entendeu e vai em direção a Bianca, a garota da foto.
– Esqueceu meu aniversário?- Pergunta ela.
– Esqueci.
– Esqueceu?- rindo e se aproximando dele, ele recua sorrindo.
– Sim, esqueci. O que vai fazer?

Ela coloca os braços em volta do pescoço dele.
– Eu vou te fazer lembrar… Com um beijo…
E então morde o lábio inferior dele, fazendo ele recuar de dor e rir ao mesmo tempo.
– Eu admito… Sou um canalha…

É um pouco verdade o que ele disse… Ela lança um olhar feliz e abraça-o. Ele fecha os olhos e sorri. Parece que encontrou seu lugar no mundo… O único lugar onde não se sente tão só.
Eu estou começando a achar que não deveria estar aqui… Minha procura sempre foi a outra coisa, não isso. Mas algo diz que eu devo ficar aqui…

E então, desviando o olhar eu vejo um homem, jovem, de estatura baixa filmando eles.. Mas algo me diz que eu deveria observar o que ele filma, e eu vejo que ele não filma eles ele filma… Ela… E eu penso que ele admira-a, ele vê ela como a criatura mais doce e inocente do universo, como a mais linda, a mais delicada, a… Mais encantadora…

Carlinhos percebe que ele filma, e deixa de ser aquele apaixonado para se tornar novamente um encrenqueiro.
– O que você tá fazendo, seu filho da puta? O cara parece fraco demais pra lutar, mas Carlinhos empurra-o.

E então ela foge entra todas aquelas pessoas. Ela fala com uma amiga e eu resolvo ouvir.
– Calma, você sabe que…- tenta argumentar a amiga.
– Eu não aguento mais ver ele brigando com o meu amigo.
– Carlinhos é ciumento, tenta entender…

– O que eu faço, por favor? Como vou contar pra ele desse jeito?
– Calma, tudo vai se ajeitar…
Elas vão em direção ao quarto.
– Admirá-la, tudo o que eu quero é admira-la!

Meus instintos me levam de volta aos dois.
Carlinhos dá um chute no rosto do homem.
– Você é um merda!
– O dinheiro que você quiser, o dinheiro que você quiser se me deixar apenas admirá-la.
Carlinhos parece se acalmar, e… Decide tentar ouvi-lo

– Ela é sua, cara, sua! Eu só gosto de vê-la, ver como é bonita, só isso… Eu sei dos seus problemas, cara, eu posso resolver, cara! O dinheiro que você quiser…
– Tudo bem…- Murmura Carlinhos – Vamos falar sobre isso.
Eles vão para a cozinha.
– Quanto você quer?

Carlinhos olha pra ele com vergonha.
– 25 mil… Não toque nela!
– Eu nunca o faria!- Exclama o homem.

Apesar de tudo, Carlinhos sabe o que fazer agora. ele pega a caixinha vermelha e, depois de ter vendido a imagem de sua amada, vai pedi-la em casamento. Tê-la por inteiro, mesmo sabendo que a imagem dela é também de outra pessoa…

Ele esconde a caixinha nas costas e procura por ela, mas logo acha, indo em direção a porta da frente.
Ele sorri e vai em direção a ela.
– Amor, eu…
– Babaca!- Grita ela.

Ela sai porta fora e bate fazendo um barulho que todos podem ouvir, apesar da música alta.
Ele até cogitou em ir segui-la, mas pensou em deixa-la esfriar a cabeça…
Para resumir, passou-se uma hora. Ele bebia e cheirava bastante,enquanto traia Bianca com um monte de mulheres.

Ele parecia um maluco, pulando e rindo… Isso até chegarem as 5 da manhã, quando todos vão embora e ele se vê sozinho. Bianca não está lá. Ele decide ir procurá-la na casa da amiga dela, que fica do outro lado da rua.

Acho que agora as coisas estão indo como eu havia imaginado, pois na calçada ele se depara com Bianca com o rosto ensanguentado dentro de um carro. Ela está debruçada no vidro, e quando ele se aproxima ele vê que o motorista é nada mais nada menos que o comprador dela. Ele sorri e deixa um papel cair na rua, e arranca com o carro muito rápido.

Carlinhos pega o papel e corre atrás do carro até os seus pulmões não aguentarem, ele não consegue alcançar.Que ironia? O papel é um cheque de 25 mil reais que ele trata de rasgar em um milhão de pedacinhos… Até que ele se lembra de algo importante…

Meu sorriso é inevitável. Essa será a mais divertida que eu já vi!
Ele corre até a casa do pai em busca de algo. Ele entra sem cerimonia e pega uma arma dentro da gaveta da sala, para emergências.

– O que você tá fazendo?- Diz o pai, que acaba de acordar com o barulho.
– Nãããão!- Exclama a mãe dele, que acordou antes para alimentar o bebê, que agora está no chão brincando com uns blocos com letras, números, animais…
– Seu doente, doente, doente, doente! Solte isso!- Exclama o pai.
– Ele mexeu com a Bianca, levou ela pra longe, eu vou matá-lo!
– Haja como um homem uma vez na vida, chame a polícia!

Ele coloca a bala na arma.
– Isso é entre mim e ele…
– Para com isso, meu filho, fique aqui em casa e chame a polícia. Ficaremos todos aqui com você, não precisa disso!- Diz o pai, tentando convencê-lo.
– Não!- Exclama Carlinhos.

A mãe está assustada e não consegue dizer nada. O pai, então parte para cima do filho tentando tirar a arma dele. Carlinhos reluta até que deixa a arma cair e ela dispara… O silêncio toma conta da sala. Carlinhos sabe o que aconteceu quando ouve o grito histérico da mãe.

O tiro foi parar na cabeça da criança.
– Nããããããããão!- Grita a mulher, de agonia e dor, dor de mãe.
Ela chora enquanto abraça seu filho sem vida, e o sangue inocente banha suas roupas brancas de dormir. Carlinhos fecha os olhos e se ajoelha no chão. O pai simplesmente chora sem saber o que fazer.

– Monstrooooooo!- Grita a mulher enquanto no seu outro filho, manchando-o de sangue.- Você acabou com a minha vida! Você não deveria ter nascido!
Carlinhos começa a chorar também, percebendo a besteira que fez… E por fim, ela volta a abraçar o cadáver inocente, olha para Carlinhos com frieza e diz:

– Assassino!
A esta altura o pai já havia chamado a ambulância e a polícia, com esperanças de que a criança sobreviva.

Os médicos e policiais chegam. Os médicos checam os sinais vitais da criança e balançam a cabeça em sinal de negação. A mulher vai ao chão mais uma vez, gritando de dor.
– Nããão! Meu filho nããão!

Os médicos levam o corpo e os policiais levam Carlinhos, que, a esta altura… É só um corpo.
E eu vou saio pensando em como as coisas acontecem, assim, de repente… Rápido… Tudo pode morrer em um piscar de olhos, e nada tem uma explicação…

A vida é assim… A morte é assim.