Lua de Sangue

Contos Minilua: Meu querido #73

E no próximo sábado, você já sabe, mais um capítulo de “O shopping”. A todos, é claro, uma excelente leitura. Ah, e-mail de participação: Jeff.gothic@gmail.com

Meu querido

Por: Juliana Lopes

Meu querido, meu bem mais precioso. Veja só como a vida é injusta… Eu amo você. Tenho um altar em casa com todas as suas fotos. Planejo todos os dias mil coisas pra gente fazer… Penso como seria feliz o dia em que acordaríamos juntos… Penso até mesmo nas brigas que teríamos, e na forma romântica como iríamos fazer as pazes. Desejo-te ardentemente aos domingos, e sofro de raiva nas segundas.

Nas terças, peço perdão por ter te odiado. Na quarta preparo todas as refeições imaginando a sua opinião… Sempre fico alegre quando imagino que elas serão agradáveis e choro compulsivamente quando imagino você dizendo que “está uma droga”. Nas quartas também, eu te deixo em paz. É dia de jogo, eu não sou boa o bastante (ainda) para lutar de frente a isso.

Nas quintas sou gentil e agradável. Indico-te livros que você gostaria de ler, e minha alma quase sai do meu corpo quando você me indica livros de volta… Quando te vejo, tenho vontade de te beijar, de selar nossos destinos, mas ainda é cedo. Nas sextas, não posso te dar atenção. Imagino nossa despedida, e a tristeza que você sentiria ao ficar longe de mim… Mas o dever chama e eu preciso cuidar do meu irmão menor.

Aos sábados é o dia que você fica em casa. Fico pra morrer com isso. Mas saio de casa, assim como eu imagino que você saia. Vejo o tempo passar, para que chegue logo domingo e tudo recomece…

E ela? Ela estuda com você. Na mesma sala. Mora ao lado de sua casa. Imagina só quão chata ela não deve ser? É baixa, quase não tem cor. E seus olhos? Coisa feia… Até parece que você ia preferir os olhos dela, aos meus que são azuis. Ela não faz outra coisa da vida a não ser estudar. Sempre usa roupas largas, nenhum homem olha pra ela. Aquele cabelo cobrindo o rosto deve ser trauma daquela cara feia… E mesmo com todos estes defeitos, você resolveu me testar…

Estava eu, no sábado, andando pensando em você, e te vejo saindo de uma sorveteria. Por um momento pensei que estivesse me enganando… Mas sua irmãzinha saiu também. Meu coração ganhou um alívio sem fim, mas logo foi tomado do mais profundo ódio. Segurando a mão da sua irmã estava ela. Como se atreve? Sua irmã sequer olhava pra mim…

Quando passei por vocês, fiz questão de encará-la. Meu olhar estava em chamas. Você, com seu doce sorriso, disse oi. Respondi, e perguntei quem era ela. Você me olhou e disse calmamente: “É a Ana.” Apenas disse um: “Ah, legal” bem seco pra deixar clara a minha reprovação. O que você disse depois me doeu profundamente.

Ao sair da presença de vocês, ouvi a “Ana” dizer: “Quem era ela?” e você dizer com desdém: “É só uma amiga.” Só uma amiga? Pensei que ao menos aquelas tarde em que nós estudássemos juntos eram mais do que apenas uma tarde.

Lembro-me perfeitamente da sua cara de espanto quando me viu no seu quarto. Eu estava ali já fazia duas horas. Ninguém me viu entrar. Vi várias fotos de “Ana” e você juntos. Cartas de amor… Você já estava a dois meses juntos? Por que me enganou? Veja bem, você será só meu!

Arrastei você com a corrente como quem arrasta um cachorro. E é isso que você é. Joguei no carro e te levei para meu lugar preferido. Aquele galpão abandonado não é apenas agradável porque é um ótimo lugar para estudar… É agradável porque aqui vai ser a nossa casa agora…

Você chora, que bonitinho… Chorar faz bem, assim como todas as vezes que eu chorei por você. Nada do que você disser me importa agora… Palavras vazias, do tipo: “Eu nunca prometi nada a você… Eu sempre te tratei como amiga… Nunca te dei esperança…”. Mentiras! Se eu te amo, você pode me amar. Pode e deve!

Tá vendo este galão em minha mão? Ele se chama “Meu amor”. Não adianta tentar soltar, essas correntes estão com cadeados e a menos que você queira dilacerar seu braço, elas não vão soltar! Continuando. Vou te banhar com “Meu amor”. Ele pode ser frio, mas tem um perfume inconfundível… Tá vendo este outro galão aqui? Ele se chama “Seu amor”. É igualmente frio ao “Meu amor”, mas tem um cheiro ligeiramente diferente, mas tão penetrante quanto. Lembra a 2ª série, quando tinha prova mimeografada.  

Agora sou eu que estou me banhando com o “Seu amor”. Deixe-me sentar ao seu lado. Pare de se mexer e gritar… Parece uma criança! Olhe pra câmera, dê um sorriso! Pronto, agora que temos a nossa foto juntos, vou deixar essa câmera aqui bem longe. O que vai acontecer agora pode danificá-la… Pronto, novamente ao seu lado, posso te mostrar uma coisa.

Já te mostrei o “Meu amor” e o “Seu amor”. Agora temos o fogo da paixão. Ele não se apaga mesmo que o vento sopre bem forte! É ele que vai nos unir para sempre! Não está feliz meu amor? Dê um sorriso, pois será o último! Agora enquanto eu acendo o “nosso fogo” por que não me dá um beijo e me diz: Eu te amo?