Contos Minilua: O Livro das Memórias (quarta parte) #268

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Hoje nós vamos continuar com o conto enviado pelo usuário Thiago Lelis. Leia a primeira parte. Leia a segunda parte. Leia a terceira parte.




O Livro das Memórias - Quarta Parte

– Não pode ser – disse ele andando devagar para frente e caindo de joelhos – Não, não, não, não. Não foi desse jeito que aconteceu.

O sótão estava todo coberto de sangue e dois corpos estavam pendurados sobre uma corda em cada pescoço.

– Meus filhos… – disse ele com lagrimas molhando seu rosto. – Não, não, não, não, não. – Tentou desenrolar as cordas para deitar os corpos deles. Fracassou e se deixou em agonia melado com o sangue deles.

Foi o grito de sua mulher que o despertou de seu sofrimento. Ele olhou para baixo da escada e a viu sendo arrastado pelo corredor. Rodrigo pulou pelo buraco do sótão e correu atrás dela.

Ele viu, por um segundo, os olhos podres da criatura que tinha levado sua mulher antes que ela fechasse a porta do quarto. Ele parou em frente à porta aterrorizado pelo medo. Aquele simples olhar havia penetrado em sua mente e alma. Aquele simples olhar alertou o seu lado covarde que sem voz, ainda o aconselhou a fugir com o instinto.

Ele não seguiu o conselho. Já havia se libertado uma vez e não cairia novamente na mesma armadilha. Dessa vez ele iria mudar alguma coisa. Dessa vez ele iria salva-la. Abriu a porta e entrou no quarto.

No quarto, ele a viu pendurada na janela pedindo socorro. Ele pulou na cama e foi até ela, mas já tinha sido tarde demais. Tocou nos seus dedos e… só. Não conseguiu agarra-los. Rodrigo a viu cair e gritou ao ouvir os ossos dela se quebrando ao tocar o chão.
Ele se encolheu ao lado da janela e chorou

– Você me prometeu tempo! – gritou com raiva pensando em Henry e o odiando – Eu… iria salva-los.

Enquanto isso, os olhos pendurados na escuridão o apreciavam em sua angústia. Rodrigo o olhou, estava com muita raiva, mas o medo era maior e ao olha-lo ele apenas aumentou. Sentia-se patético por ver tudo aquilo e mesmo assim não ter a coragem de enfrentar a criatura responsável por tudo. Nada havia mudado.

A criatura se aproximou de Rodrigo lentamente apreciando seus momentos finais. Rodrigo ficou ainda mais assustado quando viu o corpo da criatura. Ela tinha um corpo magro e retorcido, pele tão pálida e sem vida, dentes pontudos e olhos negros com pupila amarela.
Ele continuou parado quando a criatura enfiou suas garras na barriga dele. Soltando um grito de dor que ecoou pela casa vazia, ela o arrastou pela parede até a janela, de onde o lançou para o mesmo destino de sua mulher.

Na queda, Rodrigo viu toda a sua vida passar diante dos seus olhos. Os momentos da vida que teria se tivesse fugido, os que teve com sua família e os de sua infância passaram lentamente pela sua mente e sumiam, perdidos pela escuridão do vazio que se espalhava pela sua mente. Dessa vez algo havia mudado. Ele iria morrer. Aqueles anos de confinamento nunca iriam existir. Ele seria enterrado junto a sua família. Agora, ele não tinha arrependimentos.  Então veio a escuridão seguida da dor e Rodrigo encontrou conforto em seu toque frio.

Em uma cidade qualquer, em algum tempo depois, um menino de cabelos loiros abriu seus olhos azuis. Era noite. Ele estava deitado em um banco de um parque mal iluminado coberto por uma nevoa segurando um livro grande o bastante para caber em seus braços.

– Ai está você – disse o homem, que apareceu atrás da nevoa no parque. O menino olhou para frente e viu, iluminado por um dos postes, um homem vestindo com um terno negro com um corvo em seu ombro. O homem tinha um rosto liso com olhos azuis de céu aberto e cabelo loiro assim como o do menino. Já o corvo, tinha olhos vermelhos e uma pelagem negra como carvão.

– Quem são vocês? – perguntou o menino confuso, mas sem medo.

– Isso não importa. O importante é que você finalmente chegou.

– Cheguei? Onde estou?

– Bem. Ao que parece, em um parque de uma cidade qualquer. Não se preocupe com os detalhes. Apenas venha. Temos um longo caminho pela frente.

O menino pegou o livro, pulou do banco e seguiu o homem até ficar do seu lado.

– Você e esse seu animal tem um nome? – perguntou o menino curioso – Eu tenho um nome?

O homem olhou para o menino e disse

– Eu não tenho um nome, pelo menos não um que eu queira que você me chame. Então você pode me chamar do que quiser. E esse corvo não é meu.

O menino e o corvo se entreolharam. O menino achava o corvo belo e sombrio. Suas penas negras se confundiam com as sombras e o tornava um com a noite. E os olhos eram como dois rubis em meio à escuridão. Ele voltou seu olhar para o homem e perguntou:

– E de quem ele é?

– De ninguém além dele mesmo.

– Como eu o chamo então?

– Você não precisa falar com ele. Se quiser a atenção dele, fale comigo. De todo jeito, você tem um nome.

– E qual é?

– Elith.

– Parece ser um nome estranho. – disse o menino pensativo – que tal Eli? É um diminutivo legal e eu ainda acho melhor que o original.

– Acho que sim.

– E esse livro… Ele é meu, não é? Eu sei disso. Não sei como eu sei, eu só sinto que sei. Sabe?

– E você está certo. Ele é seu. Mas tome conta dele. Você sabe que ele é único, não é?

– É claro. Eu nunca irei fazer mau nenhum ao que é meu. – O menino deu uma boa olhada no seu livro e disse: – Livro de Eli. Soa legal até. E na questão do seu nome… que tal Samuel? Seu cabelo loiro e aparência agradável da ideia de um bom homem, e Samuel é um nome para um bom homem.

– Nome curto e desagradável acompanhado por um motivo falso. Ouvi-lo após tanto tempo não me agrada. Escolha outro.

– Mas você disse que eu poderia te chamar do que eu quiser.

– Também disse para escolher outro.

O menino pensou um pouco no assuntou e voltou seu olhar para o homem – Que tal eu lhe chamar de Pai? Somos parecidos e eu sinto como se fossemos família assim como eu sinto que esse livro é meu.

– De certo modo, – pensou o homem – talvez eu seja seu pai. Agora vamos.
O menino seguiu o homem sem fazer perguntas. Estava satisfeito por agora. Na caminhada, ele voltou a olhar o corvo. Viu-se querendo ter um animal igual a esse corvo. Mas, imaginou que, assim como o livro que segurava, aquele corvo era único.
Os três seguiram adiante e desapareceram em meio ao nevoeiro do parque.

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  1. Mario Dowglas

    6 de abril de 2016 em 22:52

    Não gostei da quarta parte, me deixou desestimulado a ler a quinta. Meio que perdeu o mistério que existia nas partes anteriores.

    • Poe, o corvo depressivo

      7 de abril de 2016 em 16:41

      Esse é o final, cara.

2 Comentários
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