Lua de Sangue

Contos Minilua: Chupacabra #113

Bem, e para participar do “contos”, é muito fácil. Para tal, envie o seu texto para: Jeff.gothic@gmail.com! A todos, uma excelente leitura!

Chupacabra

PARTE I

Por: Raimundo Fagner

Sabe aquele frio repentino que te bate mesmo quando a noite está quente? Aquele frio que, mesmo com vários cobertores, você sente?

Sabe a sensação de que você está caindo da cama e se assusta, percebendo que foi apenas um engano? Sua mãe ou seu amigo já ouviu você falar sozinho, dormindo?

Pois é, o frio que você sente não pode ser aplacado porque está dentro da sua pele. A sensação de queda só vai piorar, acredite, pois eles estão te testando. A conversa que você tem dormindo não é loucura, muito menos sonho.

Se te aconteceu é porque você foi marcado.

Eles observam você.

Eles tocam em você.

Eles conversam com você.

E logo logo, quando menos esperar, acontecerá com você também…

INTERIOR DE BURITI BRAVO-MA, JULHO DE 2005

Eu estava de férias.

Estavam sendo as melhores férias da minha vida.

Desculpe! Eu… eu não me apresentei.

Eu sou Lucas, Lucas Mendes. Tenho 23 anos, mas na época tinha apenas15. Morava numa cidadezinha no interior do estado do Maranhão, Buriti Bravo, você conhece? Acho que não, mas se duvidar pode pesquisar no Google, com certeza vai aparecer.

Bem, como eu estava dizendo, estavam sendo as melhores férias da minha vida. Meu pai, Manoel, trabalha como lavrador. Minha mãe, Maria, sempre o ajudava como podia e dessa vez ele decidiu colocar sua lavoura num interior meio distante da cidade, onde o solo era mais fértil. Mas ele não foi sozinho, os colegas de lavoura dele também foram, juntamente com outras pessoas que ele não conhecia. Formaram uma espécie de acampamento, um povoado chamado Pedras.

O porquê do nome? Simples. O vilarejo situa-se às margens do Rio Itapecurú. No local onde se realizam as atividades corriqueiras (banho, lavagem de roupa, etc) ficavam lindas pedras no meio do rio, formando uma espécie de mini-ilha.

Eu sempre fui vidrado por água, principalmente por pescaria. Por este motivo aquele local se tornou um santuário natural pra mim. Todos os dias (todos mesmo) eu ia pescar de manhãzinha. Saía pra procurar côcos babaçus e tucuns velhos debaixo das palmeiras ao redor de casa, pra quebrá-los e retirar os mingongos, uma espécie de lagartinha branca que se forma quando o côco ou tucum apodrecem. É excelente pra pescaria. Nossa, quando me lembro, me bate uma saudade…

As casas do vilarejo eram dispostas em semi-círculo. Casinhas simples, de taipa, teto de palha. As pessoas eram simples, que andavam de pé-no-chão, que tinham pouco dinheiro mas que sempre um sorriso estampado no rosto.

As fonte de renda alternativa era a criação de animais: porco, gado, mas principalmente, cabras e bodes. Como tinham!!! Era muito bonito vê-los descer a ladeira correndo aos montes. Grandes e pequenos, machos e fêmeas, pulando feito coelhos, de um lado para o outro em direção ao rio. Um verdadeiro paraíso.

Quer dizer, não tão paraíso assim.

Aquele verão, embora estivesse demais, também estava repleto de mistério. Várias cabras e bodes estavam desaparecendo misteriosamente. Eles saíam para pastar nas colinas ao redor do vilarejo e na floresta mas na volta sempre faltavam uma ou duas. Isso acontecia pelo menos uma ou duas vezes na semana, como meu pai dizia.

No mês de julho a situação havia piorado. As cabras estavam sendo mortas próximo às casas. Os corpos eram encontrados com as tripas para fora, como se alguma coisa  tivesse as aberto por dentro. O detalhe? Não havia nenhuma gota de sangue nelas, estava completamente secas.

As pessoas começaram a comentar, a falar que era o tal de Chupacabra, aquele que eles ouviam falar que passava casos na TV da cidade. Me lembrei do Linha Direta. Meu pai não queria que eu estivesse lá naquele mês. Ele não acreditava, achava que era apenas uma onça ou raposa, nada mais, mas queria que eu ficasse seguro. Mesmo assim insisti e ele me deixou ir.

Pra completar, meu primo chegou no interior, viera passar o fim de semana com a gente, pra pescar. Pedro era o primo que eu mais tinha afinidade, um bom amigo pra aventuras, embora só tivesse 10 anos.

Estávamos jantando arroz com abóbora e peixe frito, minha comida favorita no mundo inteiro, quando ouvimos gritos no meio do campo. Quando saí, percebi que todos estavam ouvindo e saindo de suas casas com as lamparinas ou lanternas nas mãos e correndo, devagar para não apagar, pois não havia energia elétrica, a única luz que banhava o local era a da lua quarto crescente.

Meu pai correu até o quarto, pegou sua espingarda e saiu correndo rumo ao alvoroço lá em cima, no campinho dos bodes. Minha mãe começou a rezar, Pedro e eu corremos atrás do meu pai. Ouvi ao longe os gritos da mãe me chamando de volta mas a curiosidade falou mais alto. Com certeza ela não viria, minha mãe é medrosa demais.

Quando chegamos lá, vimos uma cena horrível. Muitas cabras estavam mortas, umas sobre as outras, suas vísceras expostas, tornando a cena ainda mais macabra. O mais estarrecedor é que não havia nenhuma gota de sangue. Como todas as outras havia apenas uma marca em forma de presa no pescoço de todas.

Seu Chico estava jogado no chão, imóvel, os olhos arregalados como se tivesse visto um fantasma. Sua esposa, dona Marta, chorava desconsolada.

– Ôh meu Deus!! Chico!!! O que aconteceu, homem, fale comigo!!!

– Meu Deus! Ele está gelado!! – disse Seu Joaquim, abaixando-se para tocar a testa.

– O que diabos aconteceu aqui? – disse meu pai, ainda sem acreditar no que havia acontecido.

– AAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHH!!! – gritou histericamente Seu Chico assustando a todos.

Ele começou a se espernear e se debater, se retorcia feito um louco, sempre com os olhos arregalados. Pedrinho se agarrou a mim colocando o rosto na minha camisa. Meu pai correu para segurar ele que parecia que estava vendo uma cena de terror.

– Chico!!! Acalme-se homem!!! disse meu pai, segurando-o fortemente.

– Nããããol!!! Gritava ele, e começou a chorar como criança, como se estivesse voltando a si – Faça eles pararem!! Por Deus, por Deus, por Deus, eu não quero ver isso!!! AHHHHH!!!!

– Calma!! Nós estamos aqui Chico, não está acontecendo nada. Falou a mulher do seu Joaquim.

Todos se olhavam e comentavam, pasmos, o que estava acontecendo. Dona Marta, levantou e se abraçou com a esposa de seu Joaquim, desolada. Às lágrimas enquanto o esposo se contorcia fazendo estalar os ossos.

– Eu não entendo, Teresa – choramingava – Ele saiu porque ouviu o barulho das cabras berrando e alguns minutos quando eu saí ele… tudo… Santa Maria, mãe de Deus… rogai por nós pecadores, agora e na hora de nossa morte…

Seu Chico havia parado de gritar, estava suando e gemendo como se tivesse com todo o corpo doído. Pedrinho me soltou, mais calmo.

Enquanto todos ficavam em volta dele, eu ouvi um barulho na entrada da floresta, atrás de nós. Alguma coisa havia se mexido. Quando me virei para ver, fiquei paralisado: dois grandes olhos cor de fogo estavam olhando para mim. Eu simplesmente fiquei estático, não conseguia me mover. Aqueles… aqueles olhos ovalados, que nunca piscavam estavam me hipnotizando.

Quase que por impulso eu comecei a caminhar em sua direção. Os olhos estava ficando maiores, mais apavorantes. Um arrepio me percorreu a espinha, eriçando até o último fio de cabelo. Minhas mãos gelaram, o pavor tomava conta do meu corpo.

Eu queria o meu pai, mas não conseguia gritar. Os sons se misturavam na minha garganta e tudo que eu conseguia emitir eram sussurros. Um barulho como de ronco começou a sacudir as folhas das árvores meio metro acima da minha cabeça. A luz da minha lanterna de súbito iluminou o chão do matagal fechado e eu  vi uma perna grossa, como cascalho, coberta por grossos pêlos prateados.

Os pés eram semelhantes aos nossos mas havia dois dedos a mais e eram compridos além do normal. Meu coração estava prestes a ter um ataque cardíaco. Eu parei a menos de meio metro dos olhos. Pude sentir a respiração dele… ó Céus!!!

– Lucas!! Filho!!! – Agarrou-me meu pai. Você… você não me ouviu, filho…. Lucas??

Eu olhei para meu pai de olhos arregalados.

– Meu filho você está gelado.

– Ele existe.. pa-pai!! Ele… – eu disse, quase sussurrando.

Olhei para o mato de novo. Nada.

– O que, filho? O que você viu?

– O Chupacabra!!! – falei sussurrando de modo assustador.

Algo se mexeu na floresta. Meu pai levantou sobressaltado e mirou sua arma para o mato.

– Ilumine pra lá, Lucas!! – ordenou ele.

Eu obedeci. Girava a lanterna de um lado para outro enquanto meu pai caminhava a passos suaves para dentro da mata. Uma mão fria segurou meus ombros por trás, seguida por uma voz grave.

– O que ele está fazendo ?

Era o Seu Joaquim.

– Tem alguma coisa lá – Respondi.

Me dei conta que não falava com Pedrinho a alguns minutos. Procurei por ele no meio do pessoal que ainda conversava com Seu Chico, não estava lá. Olhei para leste e vi que Pedrinho estava caminhando para próximo da floresta e… para os olhos de fogo.

– PEDROOO!!!! – gritei, ao passo que saí correndo o mais rápido que pude.

Não! Meu primo não!

Me joguei em cima dele e caímos no chão. Ouvi o tiro da arma do meu pai ecoar no ar, assustando a todos. Um esturro como de onça misturado com acordes metálicos fizeram todos apavorarem-se e gritarem de pavor enquanto corriam amedrontados pra dentro de suas casas, clamando por Deus e pela virgem. Olhei para o mato e vi que os olhos macabros estavam brilhando de forma mais intensa, iluminando tudo ao redor, cegando-nos momentaneamente.

– Lucas afaste-se daí!!! Gritou meu pai.

Um som como de  arma a laser carregando pôde ser ouvido e um estrondo de luz arremessou a Pedro e a mim a metros de distância, assim como aos poucos que ficaram. Pude sentir as ondas de luz atravessarem meu corpo de forma tremendamente assustadora, acredito que todos sentiram. A paralisação foi total, por alguns milisegundos que mais parecendo semanas.

Num piscar de olhos a luz partiu, como raio, floresta adentro deixando boquiabertos de pavor os corajosos. Aos poucos nossa visão foi recuperada e ainda pudemos ver feixes de luz que ficavam cada vez mais fracos, à medida que o Chupacabra adentrava a floresta.

Um alvoroço se fez com os homens que ficaram.

– É  o fim do mundo!!

-Temos que deixar esse lugar o mais rápido possível!!

– Acalmem-se!!! Gritou meu pai – Nós temos que buscar uma solução juntos! Não podemos simplesmente abandonar nossa terra dessa forma, seja pelo que for.

– Mas você não percebe?! Se ficarmos vamos morrer pelas mãos do Chupacabra! – lamentou Teresa, a única mulher a ficar.

– E se nós conseguirmos capturá-lo, Teresa? Iremos ganhar milhões e aí sim, poderemos ficar tranquilos. O que os senhores cientistas não pagariam por ele? Sem contar que podemos vingar as nossas perdas!!! Pessoal, mesmo morto, o Chupacabra vai nos deixar milionários…

– Ou mortos – retrucou a mulher.

-Eu não sei porque ele escolheu esse lugar. Não sei se foi só pelas cabras, ou pela floresta fechada, Eu-não-sei. Mas se vocês não forem, eu irei sozinho.

Um silêncio tomou conta do local. Todos estavam pensativos. Quebrando o gelo, Seu Chico disse:

– Eu topo. Esse desgraçado me fez ver coisas horríveis. Eu lembro que  a luz dele me paralisou e não consegui fazer mais nada além de sentir dor. Vi milhares de crianças sendo mortas, sem piedade, o sangue delas sendo sugado, meu pior pesadelo veio à tona… eu quero matar esse desgraçado!

Pedrinho puxou minha camisa e sussurrou:

– Ele também falou com você?

Eu o olhei, incrédulo.

– Como?

– Ele queria que eu fosse com ele, você não ouviu?

– O que mais ele disse pra você? Continuei, agora olhando nos olhos dele.

– Que ele nos vêem o todo tempo, mas nós não os vemos. Eles não moram só na floresta, eles só vem estão com fome…

– Ah não!

Pedrinho chegou perto do meu ouvido  e disse sussurrando, pausadamente:

– Ele está nos observando agora!

Levantei a cabeça sobressaltado, tenso, olhando de um lado para o outro, mas a única coisa que pude ouvir as últimas palavras de meu pai.

-… E agora vamos pra casa, preparar nossas munições. Amanhã, nós vamos caçar esse maldito Chupacabra!!!