Lua de Sangue

Contos Minilua: A Bruxa no Espelho #255

E sim, suspense, mistério, terror, enfim! Todos os temas são aceitos. O e-mail de contato, claro: Jeff.gothic@gmail.com! A todos, uma excelente leitura!

A BRUXA NO ESPELHO

Por: Osmildo Antônio

– VAMOS NOVAMENTE, GREG, agora do começo. Pulemos os seus sonhos e me conte o que aconteceu – disse doutor Helwood sentando-se em sua poltrona confortável de couro preto após um rápido cochilo que tirou enquanto eu contava os meus pesadelos. Isso me deixou zangado, mas prefiro fazer o que ele me pediu embora tenha feito isso inúmeras vezes. Era bom desabafar acontecimentos terríveis, dava um alívio quando contava sobre a noite em que perdi os meus amigos.

– Aqui diz que você tinha amigos – disse ele relendo alguns papeis, o Dr. Helwood tinha sessenta e seis anos e meio e não precisava de óculos. Isso era legal! – Mas amigos não fazem o que eles fizeram, estou certo, Greg? Não amigos de verdade. Por que eles fizeram aquilo?

– Não tenho certeza – respondi, e comecei a imaginar mesmo sabendo a resposta. – Acho que para me assustar. Você sabe, minha irmã e eu éramos muito medrosos quando crianças. Todo mundo tem medo de alguma coisa. Todo mundo reage de uma forma quando se assustam. Minha irmã, por exemplo, borrava as calças. Quanto a mim, imitava o que me assustava; nossos pais falavam que isso era uma forma de enfrentar os meus medos. Funcionou por um tempo até eu usar isso contra o valentão da quinta série.

Hoje poucas coisas me assustam, perdi o medo desde a noite em que meus amigos e eu fomos a casa abandonada na Floresta do Berrador. Na verdade, Pit e Cal que sugeriram passarmos o fim de semana longe de casa. Alugaram uma van e pegamos a estrada.

Éramos oito pessoas, os perfeitos estereótipos do colégio, mas nem sempre fomos amigos, todos tínhamos um segredinho sujo um do outro: Cal era o esportista desmiolado, acreditava que era gostosão e iria pegar pelo menos duas garotas naquela noite na casa abandonada; Pit era o palhaço, fazia piada com tudo, mas ao contrário do Cal, Pit era esperto; George, o valentão que mencionei, quebrou o meu nariz na quinta série quando resolvi enfrentá-lo na frente da Megan; Megan também foi com a gente, sempre fui apaixonado por ela, isto é, até algumas semanas atrás quando um vídeo viralizou no colégio em que ela estava bêbada fazendo sacanagem com o ex-namorado.

No dia seguinte ela apareceu com um olho roxo, o vídeo vazou abrindo automaticamente no celular do pai dela enquanto jantavam, deve ter sido horrível; algo me diz que quem fez isso foi Isabelle, a garota que Megan fez beber água da privada na oitava série, mas estranhamente estavam juntas como amigas naquela noite; Samanta veio, era só uma garota legal, não tinha nada de extraordinário a não ser a beleza de uma garota de dezessete anos que dava fora em todos os caras, quando na verdade ela tinha uma queda pela Isabelle; e por última e menos importante minha irmã Emma, a metida, eu detestava o modo como ela estava sempre um passo a minha frente em tudo.

E eu, um nerd suburbano que queria estar no meu quarto aquecido fazendo minha lição de casa, mas acabei curtindo quando sentamos na grande sala, acendemos a lareira e conversamos sobre as coisas que odiávamos no colégio. Havia uma tempestade lá fora, não parava de trovejar. A casa era antiga, aquelas em que as portas rangiam e o soalho soltava pó quando um rato corria pelas vigas. Os móveis tinham pelo menos uns duzentos anos, apodreciam sob lençóis cinzentos obrigando-nos a sentarmos no chão.

Havia pelo menos três andares e uma porção de portas que não abrimos antes de Pit contar uma história de terror. No início achei que ele estava inventando, mas Emma tinha lido sobre o lugar antes de chegarmos.

– Pouca gente sabe e não acredita – começou Pit, era estranho vê-lo sério e com a voz tensa tentando criar um clima – mas essa casa é amaldiçoada desde o século XIX quando um grupo de escravos do sul fugiam para o norte e encontraram este lugar. Aqui vivia apenas uma mulher que lhes deu abrigo e suas terras para eles ficarem. Em troca, ela pediu apenas duas coisas: que cuidassem da terra e que nunca entrassem na casa. Isso era fácil, eles pensaram, mas se perguntaram como ela sozinha dava conta da casa inteira.

O tempo passou e tudo ia muito bem até que pessoas começaram a desaparecer. No início acharam que haviam se perdido na floresta, mas notaram que isso acontecia em determinadas noites de lua cheia. Desconfiaram da mulher e invadiram a casa e encontraram todos os desaparecidos mortos esfolados e com marcas e desenhos estranhos sobre a pele.

Continuaram e descobriram o esconderijo da bruxa justo quando ela estava prestes a sacrificar mais um em seu ritual profano. Eles a arrastaram pelos cabelos para fora da casa, a amarraram num tronco e a torturam da mesma forma que os seus donos os castigavam. Por fim queimaram seu corpo e jogaram seus ossos no rio…

– Vai, Pit – interrompeu Emma irônica, estava arrependida de ter entrando na casa antes de pesquisar sobre o lugar -, pula logo para parte legal da história.

– Como assim? – perguntei, pelo tom dela não perecia ser legal, o que não ajudou a fazerem meus joelhos pararem de tremer. – Tem mais nisso aí?

– Esqueceu que a casa é amaldiçoada, bobão? – lembrou Sam só piorando minha situação.

– Claro que esqueci, e obrigado por lembrar – respondi, acho que fui grosseiro com ela.

– Qual é, pessoal – disse Pit -, vão deixar eu terminar ou não?
Para mim a história já teria acabado. – Não precisa. Ela morreu, não morreu?

– Não – respondeu Emma trêmula. – Isto é, sim, mas antes de ser queimada ela prometeu se vingar das pessoas que entraram na casa. Os escravos morreram alguns dias depois.

Ficamos em silêncio até Pit quebrar o gelo chateado por não ter terminado a história. Ele parecia não se dar conta do perigo que estávamos correndo.

– O quê?! – gritaram as garotas.

– Você deixou que entrássemos sabendo que o lugar é amaldiçoado, cara? – disse Cal.

– Sim – respondeu Pit calmamente. – Não acredito que estão assustados. Não pensei que acreditassem nessas coisas (pelo menos não vocês, caras). Relaxem, é só uma lenda idiota. – mas ninguém lhe deu ouvidos, haviam desistido da noite e se acomodaram perto da lareira. – Peraí, ninguém vai querer as camas? Ele estava de brincadeira.

– Tá maluco? – disse George. – Não foi você que disse que encontraram corpos na casa? Pit respirou fundo desistindo dos seus planos para aquela noite.

– Ok, querem saber? – disse Pit – Desisto. Achei que seria excitante, mas a metidinha aqui teve que estragar tudo. Podem ir para os quartos, não tem nada lá. A casa foi habitada até alguns anos atrás; até tentaram transformá-la em um hotel, mas ficava longe demais da estrada. Estão felizes?

A maioria levantou-se como um raio. Apenas eu fiquei sentado, havia trazido meu saco de dormir e alguns salgadinhos; preferi ficar, o que Pit disse não me acalmou.

– Não quer ficar? – perguntei esperançoso a Emma. – Tem bastante espaço aqui, cabe mais um – ela apenas respondeu com uma expressão enojada e subiu as escadas com Isabelle. Ouvi as portas abrirem com um rangido longo e baterem ao serem fechadas.

Não sei de quem foi a culpa: deles por terem me deixado sozinho ou minha por ter vindo. Só sei que cochilei rapidamente ao conforto do meu saco de dormir junto a lareira crepitante, mas apenas por alguns segundos. ACORDEI QUANDO OUVI vidro se estilhaçando no andar de cima e vi uma sombra passando rapidamente de cima para baixo pela janela.

Não tive coragem de verificar o que era. Apenas corri para o segundo andar, meu coração batendo acelerado nas costelas. Tropecei nas escadas por estarem molhadas e viscosas e quase quebrei o pescoço rolando escada abaixo, mas me recuperei, alcancei uma porta no segundo andar que dava para um corredor escuro e comprido; não queria abri-la, alguma coisa batia freneticamente do outro lado, mas o grito de Emma me impulsionou a girar a maçaneta e continuar.

As portas dos quartos estavam abertas e faziam o barulho batendo violentamente com a força do vento que entrava pela janela aberta de um dos quartos. Na verdade estava quebrada, era grande e deixava o vento entrar levantando poeira e as finas cortinas como se fossem fantasmas. Mas onde estavam Emma e os outros? Achei que era um trote, mas ao olhar pela janela para ver o que poderia ter caído daquela altura, mudei de ideia e corri o mais rápido que pude depois que recuperei as forças nas pernas: era Megan; seu corpo seminu estava sobre a lama cortado pelos estilhaços de vidro.

O mais intrigante era uma sombra em pé ao seu lado que não consegui identificar, estava chovendo e tão escuro que mal podia ser notada se não se mexesse lenta e vagarosamente no mesmo lugar. Um arrepio subiu a minha espinha quando tive a sensação de que me encarava e logo caminhou mancando para frente da casa.

Corri os outros quartos sem encontrar ninguém. Ouvi passos frenéticos que fizeram cair poeira do teto. Havia alguém no terceiro andar. Subi mais um lance de degraus tomando cuidado para não cair dessa vez. Chamei por todos eles em vão, era como se escondessem de mim. Além do som da chuva e do vento só havia o silencio de uma casa abandonada grande e velha.

Foi quando de repente vi uma luz por baixo de uma porta, tremulava e só aumentava ao som de pancadas no chão. Não levou um minuto para parar e tudo silenciar novamente. Confesso que sou um completo covarde e não quis saber o que estava acontecendo do outro lado da porta.

Apenas engoli em seco e tirei o tênis para continuar sem fazer barulho, mas havia outra coisa vindo na minha direção em passos lentos arrastando algo pesado se aproximando pelo corredor que cruzava o corredor onde eu estava. Não tive muito tempo para pensar, entrei no cômodo à minha esquerda para me esconder onde encontrei Emma e Isabelle apavoradas. Tentei perguntar o que estava acontecendo, mas elas apontaram na minha direção.

Olhei para trás quando alguma coisa agarrou o meu corpo e senti que não conseguia respirar. Eram dois braços secos da cor de osso e dedos longos que me seguravam firmemente por trás. Senti algo gelado encostar no meu rosto e vi pelo canto do olho que era uma caveira num vestido longo e estragado. Gritei apavorado tentando me soltar, mas era tarde demais, eu era a próxima vítima da bruxa morta. Tentei pedir ajuda às garotas, mas elas não paravam de apontar e gritar; e apenas Emma estava armada com um machado na mão…

– Greg… – choramingou Emma – eu sinto… sinto muito…

– Não se preocupem – eu disse a elas -, vai ficar tudo bem se conseguirem descer pela janela. Ela está ocupada comigo. – elas não se mexeram. – Corram! Peçam ajuda e encontrem os outros! – Mas elas não correram.

Emma e Isabelle apenas se afastaram uma da outra revelando um grande objeto sob um lençol empoeirado. Isabelle o puxou descobrindo um espelho. Conseguia ver a bruxa nele.

– V-você… – gaguejou Isabelle. – você matou todos eles, Greg… Como pôde fazer isso? Por quê?
Não entendi.

– Não se lembra? – perguntou Emma me deixando mais apavorado; senti minhas roupas molhadas.

– Lembrar, lembrar de quê? – uma fumaça invadiu o quarto. A casa estava em chamas.

– Acerta ele, Emma – disse Isabelle. – você disse que ele era retardado e podia ser perigoso. Ele vai acabar com a gente.

Não conseguia entender até olhar mais uma vez o espelho: havia alguém com um vestido podre que um dia fora azul, tinha um enorme laço na gola e segurava um galão de gasolina numa mão e um molho de chaves na outra; seus braços eram ossudos e o rosto magro e insone coberto por um véu e percebei que era apenas eu.

Ouvi a voz da mamãe, não consegui entender o que ela disse, mas lembrei de todas as coisas que eu fazia quando criança. Agora tudo fazia sentido. Fazia sentido todos terem se levantado naquela hora; fazia sentido a escada estar escorregadia e viscosa; fazia todo o sentido a luz atrás da porta e alguma coisa pesada sendo arrastada pelo corredor. E fazia todo sentido elas estarem ali apavoradas com medo de mim.

Mas acima de tudo, doutor, descobri quem era o culpado por todas aquelas coisas e chamei a polícia. Todos eles eram culpados. Culpados por terem me levado para aquele lugar, por terem contado aquela história e me deixarem assustado. Mamãe sempre dizia para eu enfrentar os meus medos e nunca deixar que algo me assustasse. Esse foi o erro deles, de todos eles embora eu tenha que confessar uma coisa, doutor.

– O quê, Greg?

Perdi minha irmã e meus amigos, mas nunca mais tive medo de bruxas.