Lua de Sangue

Contos Minilua: Um beijo no coração #2

E antes de começarmos, gostaria de agradecer a todos os leitores do site. Saibam, de antemão, que é muito bom contar com vocês. Mensagem dada, vamos ao texto de hoje. Preparados? Uma boa leitura!

Contos Minilua- Um beijo no coração

Bem, e para vocês, que desejam participar, tome nota: Envie agora mesmo o seu texto. Os melhores, no caso, serão selecionados por nossa equipe, e postados aqui mesmo, no Minilua. Um forte abraço, e até mais.

E-mail de contato: Jeff.gothic@gmail.com

Por: Birdy L.

A seguinte história, meu mais que caro leitor, é tudo o que o título não deixa transparecer. Se tu queres a narrativa de um romance, podes abandonar desde esta sentença o escrito que tens perante de ti. Mas caso tenha abandonado de bom grado seus frívolos desejos, prossiga e imagine isso:

Uma noite mais escura do que as comuns, o céu coberto por frondosas nuvens, a lua ausentou-se de testemunhar os terrores que as implacáveis últimas horas da noite encerram. Guio-te agora até um bar, um ambiente escondido, porém, não lúgubre – ao menos, não em si mesmo, ainda que as almas ali dentro talvez o sejam.

Um homem se aproxima da bancada; ele se veste bem, estranhamente está de luvas, e não desagrada à vista, tem um olhar ferino e à caça, que recai detidamente em uma jovem. A garota é maior de idade, embora sua aparência quase infantil pareça rechaçar o que o registro de nascimento indica, ela quase não tem curvas, seus cabelos lisos e loiros acariciando os ombros da dona, seus olhos de um azul escuro e profundo. Ela está só, lê um livro, a história parece não ser boa, pois ela ergue a cabeça várias vezes, procurando melhor distração, ou talvez uma história própria para viver.

– Moça, a Srta. é tão bela, que ali ao longe meu único pensamento foi o quanto eu gostaria de tocar seu coração, talvez até com meus próprios lábios.

Ele deu um sorriso com o canto dos lábios, um sorriso charmoso para todos os efeitos.

A moça deu outro sorriso em retorno.

– E qual o nome do Sr. Metafórico?

O homem olhou por cima dos ombros, depois olhou novamente para a moça e oferecendo a mão respondeu:

– Carlo. Carlo Esteves… Sua vez agora!

– Paola Lecter.

A partir dessa apresentação leitor, tu podes imaginar que futilidades foram dialogas e a quantidade de álcool que a levou a aceitar o seguinte convite:

– Por que você não vem comigo até minha casa? É próxima, e o bar está prestes a ser fechado, mas a noite não precisa ser encerrada agora.

Eles partiram. Eu testemunhei, enquanto ele guiava a ignorante jovem por um caminho um tanto solitário e umbroso. Seus passos silenciosos adentraram numa praça abandonada.

De repente, a moça pareceu aguçar seus sentidos para o lugar em que se encontrava e para um sentimento intangível. Ela interrompeu sua marcha.

– Sua casa é atravessando este lugar?

– Ah, sim, estamos muito perto.

– Talvez eu devesse ir pra casa. O sol não se demora e eu tenho muito que fazer.

Os olhos dela relampearam com um pressentimento angustiante, que se abrandaram um pouco quando ele falou:

– Oh, minha querida. Se você for para casa e me deixar, como eu poderei beijar-lhe o coração?

– Meu coração já lhe pertence, querido, mas devo partir.

– Não partirá! – ele respondeu, com uma suavidade afetada.

– O quê?

E então, ele desvendou uma adaga de dentro de suas roupas e plantou-a no peito da jovem.

Ela não teve tempo de gritar ainda em vida e nem mesmo seu coração agora podia manifestar qualquer oposição à entrega da vitalidade da infortunada jovem para a morte; uma vez que o homem encerrava o coração dentro de suas próprias palmas.

Ele suavemente tocou-o com os lábios, cheirou-o… Em seguida, vinha a parte do seu ritual repetido tantas vezes antes em que ele devorava o coração da vítima, mas não dessa vez… Dessa vez, uma viatura da polícia passou ao longe e ele largou o órgão da moça e saiu da cena.

-x-

Ah, mas lá vai o homem novamente. Sim, é ele mesmo. Pro mesmo bar – um mês depois da sua última conquista, do seu ritual frustrado. Aproxima-se novamente da bancada, percorre o local com os olhos, pede uma bebida. Mas essa noite, ele não terá chance de escolher uma vítima, a vítima o escolherá e ela se aproxima. Uma loira, sem muitas curvas, não muito diferente da última… Na verdade, espantosamente parecida com a última, a única diferença eram os olhos incrivelmente rubros. Ele a observa se aproximando, seu coração se acelera, mas logo, ele toma as rédeas das suas reações corpóreas: “pode ser uma gêmea, ou eu posso estar imaginando coisas, bebi muito aquela noite”. É, por que não culpar a bebida ao invés de encarar o que está bem na sua frente, não é, leitor?

– Olá. – a loira respondeu todos os músculos do seu rosto transmitindo apenas interesse, porém reconhecimento algum.

– Oi.

– Meu nome é Florence. Como você se chama?

– Carlo.

– Então, Carlo. Você me pagaria uma bebida?

– É claro.

Os dois engatilharam uma conversa descontraída e fácil…

– Olha, eu queria – simplesmente – beijar seu coração! – ele anunciou ao fim da noite.

– E o que te impede? – ela indagou erguendo a sobrancelha esquerda.

Ele sorriu.

Guiou-a para fora do bar, sua mão na cintura dela, eles adentraram no mesmo caminho que ele percorrera tantas vezes antes, com tantas outras moças, que se passaram pela mesma tragédia que esta haveria de passar agora.

Quando ela desviou a face do rosto dele por alguns segundos, ele tomou a adaga e enfiou-a no peito dela, tirou o coração…

Beijou-o. Cheirou-o. Mordeu-o.

E quando um naco do órgão foi arrancado ele viu que o coração estava recheado de larvas. Ele as sentia movendo-se na sua boca, tentou cuspir; mas nesse momento, uma mão gelada e ferrenha tampou lhe a boca e ele viu diante de si a mulher que ele acabara de matar.

– Você não se lembra de mim? A carne que o demônio toca com as mãos apodrece, sabia? Porém o demônio tem a vantagem de ser ele mesmo feito de um material, cuja sua maldade não faz perecer. Seus lábios tocaram meu coração… Eu preciso de outro saudável para continuar a viver.

A boca do homem estava escancarada como se prestes a gritar, mas nenhum som saiu – como se a voz dele tivesse virando um ente a parte que temesse a situação em que se encontrava. Contudo, seus olhos gritavam fortemente.

Ela o subjugou, levantando a cabeça pelo cabelo e batendo-a forte contra o chão, rendeu o corpo dele debaixo do seu com uma força sobrenatural, cada joelho por cima de um braço; depois, pegou a adaga que ele usara para abrir seu próprio peito e desenhou o símbolo de um coração na testa do homem. A vítima que virou caçadora puxou a língua dele e desprendeu-a do corpo a que pertencia dizendo que “nenhuma língua deveria ser usada no processo de jogar mentiras no mundo”. Por fim, ela arrancou a blusa do homem e desenhou um traço vertical e superficial em seu peito com a adaga.

– Um rascunho! – ela informou sorrindo. A voz de Carlo encontrou caminho e ele emitiu alguns sons aflitos e inteligíveis. E então, ela passou a adaga mais uma vez sobre o traço, rasgando a carne mais profundamente. Ela passou o indicador pela ferida uma vez de baixo para cima, e iniciou o mesmo movimento de cima para baixo, mas parou com o dedo encima do ponto onde se localizava o coração de Carlo, enfiou a mão pálida dentro do corpo dele e arrancou o coração a princípio pulsante e desesperado, agora morto… E alocou-o já silencioso dentro do seu próprio peito.

Em seguida, a jovem passou um dedo pelo ferimento que Carlo desferira em seu corpo, que passou a ser apenas uma lembrança. Sua carne estava tão lisa quanto o fora no dia do seu nascimento. Ela ergueu-se inabalável na sua satisfação, limpou a terra das vestes e partiu – sem olhar pra trás uma única vez -, cada movimento uma dança de eloquente satisfação, veio até mim, segurar a mão do seu mestre.