Contos Minilua: As cartas #87

Suspense, mistério, terror…Enfim, sinta-se a vontade para participar! O e-mail? [email protected]! A todos, uma excelente leitura!




As Cartas

Por: Vitor Basílio

25/09/1995

Eduardo,

Não, infelizmente não há como eu voltar atrás. Acredite que sua argumentação muito me impressionou, não só pelo conteúdo, mas também pelo capricho e apuro na organização. Se possível, eu o livraria apenas por isso.O que mais me cansa a respeito disso tudo, são as súplicas, lágrimas, negações, a dificuldade que as pessoas têm em aceitar um fato consumado tão simples; raramente vejo calma e ponderação, como é o seu caso. Ser incapaz de te dar alguma espécie de tempo extra que seja, me frustra mais que qualquer coisa. São momentos assim em que me pego refletindo sobre meu trabalho e imaginando como seria bom aparecer para as pessoas com boas notícias, visitá-las para uma conversa agradável, acompanhada de um café com biscoitos.

Acredito que você já deva ter visto nos jornais notícias sobre a queda das taxas de mortalidade e aumento da expectativa de vida da população mundial, sem nenhuma explicação convincente, não? Pois é, isso acontece quando estou em meus momentos de introspecção.

Em contrapartida, os problemas também surgem, como o aumento do número de idosos, déficit da previdência, e muitíssimas outras coisas tão tediosas quanto. É isso, em parte, que me faz esquecer os questionamentos internos e voltar a bater o cartão. Já ouvi uma expressão muito popular que diz: nunca reclame do seu emprego, há sempre alguém com outro pior. Isso eu te digo, Eduardo, é verdade, e eu sou o exemplo definitivo.

                                                                                                                                           Morte

30/09/1995

Eduardo

Obrigada por suas palavras. Elas, mais do que em sua primeira carta, me fazem sentir asco de mim mesma por ser tão impotente. Você me pergunta por que afirmo tão categoricamente não poder te poupar e lhe dar mais alguns anos. A resposta é simples e talvez até irônica; porque não posso. Suponha que eu não te leve, o que irá acontecer? Seu risco de vida aumenta e você se torna muito mais vulnerável do que de fato é. Mesmo coisas insignificantes podem te matar, como um susto.

A tendência, entretanto, é de que a sua morte seja a mais violenta possível, não como forma de punição a você, mas a mim, apenas por ter me apiedado e o presenteado com um tempo extra. Um lembrete para que eu continue desempenhando minha função sem interferências, me mostrando que não agir na hora certa tem sempre suas horríveis consequências. É isso, Eduardo. Preciso te levar agora.

                                                                                                                                         Morte

01/10/1995

Eduardo

Esta é a última carta que escreverei a você. Seu prazo expira dentro de cinco dias, a contar de hoje. Aceite tudo e acabemos logo com isso. Não há por que prolongar essa situação. Prometo que farei tudo ser o mais calmo e indolor possível. Será no seu apartamento, de madrugada. Se preferir, deixe as luzes acesas. Se quiser beber, que seja pouco. Não há necessidade de deixar a porta destrancada, eu posso entrar sem impedimentos. Espero que você entenda.

                                                                                                                                      Morte

- E isso foi tudo de incomum encontrado lá?

- Não só isso, mas também as indicações da última carta foram seguidas a risca. A porta do apartamento estava destrancada, as luzes acesas e um copo de uísque pela metade ao lado da cama.

- E qual foi mesmo o resultado da comparação de caligrafia?

- Negativo, a letra dessas cartas não batem com as do desaparecido. Como o senhor pode ver, a das cartas é fina e inclinada, enquanto as de Eduardo são quase ilegíveis, puros garranchos. Deixe-me pegar o exemplo analisado.

O assistente pegou uma anotação de Eduardo encontrada no apartamento e confiscada pela polícia, e a entregou para o delegado. Este as examinou de cenho franzido e disse:

- Realmente, não há a mais remota semelhança entre as duas. Uma coisa me chama a atenção, no entanto, o papel das cartas me parece comum e normal, do tipo pautado e encontrado em qualquer papelaria.

- O senhor está certo. Os peritos chegaram à mesma conclusão.

- E quanto à tinta? – perguntou o delegado, colocando os papéis em cima da mesa e se inclinando para trás na cadeira.

- Também comum, vinda de uma caneta tinteiro disponível em qualquer estabelecimento comercial.

O delegado suspirou de cara fechada. O assistente se encolheu, instintivamente.

- E os registros médicos do rapaz?

- Nada de anormal, ele gozava de perfeita saúde, física e mental.

O delegado inspirou profundamente e soltou o ar numa bufada. Levantou-se e foi até a mesinha perto da porta, se servir de café.

- Quer dizer que temos um desaparecido em circunstâncias misteriosas e as únicas pistas concretas são três cartas cuja procedência não conseguimos descobrir.

- Basicamente – respondeu o assistente, pondo-se de pé.

- E essa “Morte”? Nada a respeito dela ou dele? Quem é? Por que escreveu para ele? Qual interesse teria em escrever tais coisas?

- Sinto muito, delegado – exclamou o assistente, baixando a cabeça.

O delegado pousou a xícara na mesinha e levou as mãos ao rosto. Odiava ser feito de idiota.

- Espere – gritou o assistente subitamente – há algo aqui que passou despercebido, delegado.

O delegado olhou o assistente por alguns instantes, desconfiado de que talvez fosse um fato irrelevante, tornado momentaneamente importante pelo assistente apenas para fazê-lo se sentir melhor. No fundo, dadas as circunstâncias, desejou que assim o fosse.

- Nesse relatório afirmam que nenhuma caneta tinteiro foi encontrada no apartamento – continuou o assistente – e mais a frente é dito que nenhuma das pessoas próximas à vítima entrevistadas pela polícia possuíam uma.

Os dois se entreolharam, numa mescla de espanto e ceticismo. O delegado foi até o assistente e pegou o papel. Depois caminhou até sua mesa, apanhou os óculos e leu o relatório de cabo a rabo. Ainda o releu mais cinco vezes, tentando encontrar erros de qualquer natureza, seus ao ler, ou do policial que redigira o texto. Não os encontrou.

- Não, não posso lidar com isso agora, já é tarde. Muito tarde – começou o delegado, tirando os óculos e esfregando os olhos.

- Se o senhor quiser – emendou o assistente – posso continuar daqui enquanto o senhor vai pra casa descansar.

- Não, não será necessário. Vamos todos embora. É hora de descanso. Amanhã vou ordenar que esse caso seja fechado e arquivado.

Vestiu o casaco e esperou o assistente fazer o mesmo. Deixou-o sair na frente e saiu em seguida, fechando a porta. Nunca mais se ouviu falar daquele acontecimento.

Reaja! Comente!
  1. Rodrigo Rodrigues

    23 de abril de 2013 em 16:48

    Uma história sensacional! A “Morte” nos mostrou que é infalível e oculta a qualquer investigação. O escritor deste conto é extremamente criativo. Parabéns! Gostaria que publicassem mais contos dele.

  2. Gabriel Rebustine

    19 de abril de 2013 em 17:45

    Isso sim é uma história bem contada. Parabéns ao autor.

  3. Rap­osa Furry

    17 de abril de 2013 em 10:43

    terminando de ler e vindo comentar…
    ARRRRRRRGHHHHHHH MEUS OLHOS!!!!!!

    enfim, gostei do conto

  4. eduardo (eduh)

    16 de abril de 2013 em 17:13

    O assistente Xingou minha caligrafia,e a morte nunca mais me mandou um carta,e-mail ou me ligou depois disso T-T

  5. Li Syaoran

    16 de abril de 2013 em 16:42

    Muito bom, muito bom mesmo. Deu até uma certa comoção quando refleti mais uma vez sobre a fragilidade humana.

  6. The little PAULA

    16 de abril de 2013 em 16:14

    alguém andou matando as aulas de português…

  7. Alexandre Layder

    16 de abril de 2013 em 15:57

    CADE OS CONTOS DE TERRORES MELHOR?! acabo?! qro mais sobres as coisas! ;(

  8. Rafael (Baphomet)

    16 de abril de 2013 em 14:20

    Gostei desse conto,belo uso de palavras,um suspense muito legal,ficou ótimo 😉

  9. Ivan Carlos

    16 de abril de 2013 em 11:15

    TOSCO O/

  10. The little PAULA

    16 de abril de 2013 em 10:58

    achei o conto muito bom, não é assustador de fato, mas trata de algo bem interessante! e bem escrito também!!

  11. AV£ F£NIX

    16 de abril de 2013 em 10:11

    • The little PAULA

      16 de abril de 2013 em 11:07

      interessante a creepy pasta, mas eu como uma otimista irredutível não deixe-me abalar por ela…

  12. lucas rodrigues

    16 de abril de 2013 em 06:35

    O conto que eu enviei pro Jeff também fala sobre morte, mas especificamente sobre a personificação da morte que creio eu todos saibam o que é. Espero que seja publicado logo, tô muito ansioso.

  13. lucas rodrigues

    16 de abril de 2013 em 06:32

    Excelente conto, a temática da morte é essencial para contos do gênero, a história se desenvolveu muito bem do início ao fim. Nota: 10,0 , Parabéns ao autor.

  14. Crocodile

    16 de abril de 2013 em 03:14

    Fila do SUS
    [img]http://luadesangue.com/wp-content/uploads/2013/04/ff0ba15e7be989d105bd8c585e7a7c73.jpeg[/img]

  15. Crocodile

    16 de abril de 2013 em 00:41

    Eita

  16. Nameless

    16 de abril de 2013 em 00:10

    Sem necessidade de tela preta, o conto não é assustador.

    • Jeff Dantas

      16 de abril de 2013 em 00:18

      É mais pelo contexto geral.. Envolvendo morte, mistério, suspense.. 🙂

  17. Dark Vampire

    15 de abril de 2013 em 23:31

    Muito bom, mexeu bem com esse conceito de morte e tal.
    Será que eu percebi uma influência alá Dumbledore nessa Morte?

    • thiagosilva lp

      17 de abril de 2013 em 21:51

      tambem percebi kkk… caligrafia fina e inclinada… vai ve era ele U-U

      • Dark Vampire

        17 de abril de 2013 em 21:56

        kkk E também tem o jeito misterioso dele de falar, como se soubesse exatamente o que aconteceria depois, muito Dumbledore, meu terceiro personagem favorito de HP.

  18. Hibari Kyoya

    15 de abril de 2013 em 23:28

    Esse foi legal, gostei da imagem 1 também, só que… já acabou? Hora de dormir, ciao ciao.

  19. Eletricidade

    15 de abril de 2013 em 23:22

    Muito bom por sinal .

  20. Jeff Dantas

    15 de abril de 2013 em 23:13

    Um dos melhores que eu já recebi. Vale a pena! ^^

    • Dohkito

      31 de maio de 2013 em 15:26

      Realmente um dos melhores, a menos que vc se chame Eduardo(meu nome eh Eduardo)

    • From Hell

      16 de abril de 2013 em 00:05

      Você é o maior mentiroso do Minilua u.u
      Vou ter que contabilizar quantas vezes você já disse “um dos melhorres…” ” Vale a pena”.

      • Jeff Dantas

        16 de abril de 2013 em 00:18

        Pelo contrário, Fê.. Se eu digo, eh pq realmente acontece.. Aliás, já são mais de 80 contos.. Entre eles, alguns dos melhores contos q eu já li…

        • Litzen Vampiro

          16 de abril de 2013 em 07:32

          Ficou realmente bom, porém, poderia trazer alguns maiores…

  21. Wagner

    15 de abril de 2013 em 23:10

    Lerei outro dia… Cliquei em “Gostei” sem querer =/

  22. Eletricidade

    15 de abril de 2013 em 23:09

    Estou chocado com a matéria.

30 Comentários
Topo